sábado, 30 de julho de 2011

UM OUTRO CRISTIANISMO É POSSÍVEL...

Existem, infelizmente, dois grandes discursos na Igreja nessa atual conjuntura, duas formas distintas de viver a eclesialidade nos dias atuais. O primeiro, mais em volga principalmente na mídia e nas grandes concentrações da fé, traz uma abordagem conservadora e tradicionalista, geralmente imbuída de muito emocionalismo e devocionismo. Jesus Cristo, a partir dessa vertente, é o Senhor dos grandes milagres e dos discursos moralistas, desvinculados da vida real e das condições históricas de seu povo.

Nessa perspectiva, surgem quase sempre cristãos infantilizados, despreparados para enfrentar os desafios deste mundo caótico e desprovidos de identidade eclesial. Quando não temos consciência clara de quem é Jesus Cristo e de quem realmente somos, nos tornamos dóceis crianças conduzidas por qualquer vã doutrina ou por qualquer um que se apresente diante de nós.

Acabamos nos tornando meros frequentadores de atos litúrgicos, de reuniões e mais reuniões infrutíferas, figuras medrosas e acanhadas na vida real. As fórmulas devocionais desse grupo de "verdadeiros guerreiros da fé" são cópias mal-feitas de um neopentecostalismo alienante e completamente avesso dos ensinamentos claros e "incômodos" da doutrina social da Igreja.

Recentemente, um site católico de renome, publicou o seu "index" condenando uma série de leigos, religiosos, sacerdotes e bispos, taxando-lhes de "comunistas e propagadores de uma doutrina anti-cristã". Até que ponto chega o nosso olhar míope da fé! As vendas da hipocrisia e da ignorância nos impedem de ver a verdade e experimentar o "gostinho" inconfundível da fé cristã.

Lutar por uma sociedade verdadeiramente justa e igualitária, denunciar os desmandos daqueles que oprimem e massacram os mais pobres, conscientizar a população acerca de seus direitos e deveres, unir fé e vida são obrigações dos que se dizem discípulos e missionários de Cristo. Aonde foram parar as Conferências de Medellín, Puebla, Santo Domingo e Aparecida que tanto enfatizam a opção preferencial pelos pobres? Se isso é coisa de comunista, quero o meu nome incluído nessa relação!

A outra vertente de Igreja, presente principalmente nas pequenas comunidades, tenta dar visibilidade aos clamores dos inúmeros excluídos da sociedade. Acusados implacavelmente de envolvimento ideológico com o político e o social ("marxização" da fé cristã), os ditos "comunistas" representam a voz profética do cristianismo há muito esquecida, mas nunca silenciada.

A Teologia da Libertação, tão atacada e vilipendiada pelas autocracias eclesiásticas, continua a motivar, embalar as grandes lutas, inspirar os corajosos profetas da contemporaneidade que ainda acreditam em um outro cristianismo. Na maneira simples de celebrar e partir o pão, vemos claramente o espaço fraterno aonde as minorias celebram o grande festim do Reino de Deus, já presente aqui e agora.

Duas faces de uma mesma Igreja! Opostas ou unidas na diversidade? Martin Luther King, em um de seus memoráveis discursos, disse certa vez: "Precisamos nos unir como irmãos ou pereceremos como loucos." O caminho que nos é proposto é resgatar o verdadeiro projeto de Jesus Cristo, para que ele não se torne uma figura proeminente do passado sem implicações concretas na vida atual. Qual a imagem de Jesus Cristo que devemos apresentar ao povo cristão em catequese, ensino religioso e homilia? Qual a importância de um determinado referencial cristológico para o (não-) engajamento social e político de cristãos e cristãs?

Por César Augusto Rocha - coordenador do Conselho Diocesano de Leigos/as

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4 comentários:

Radeir disse...

" Teilhard de Chardin percebeu como a expressão de uma unicidade do Planeta, afirmando a emergência mais do que necessária de uma consciência universal, de uma cidadania mundial.

Teilhard de Chardin desejava veementemente a implementação de um arco de sustentação no sistema mundial. Ele insistiu no sentido do papel preventivo de um âmbito internacional capaz de reagir de forma coletiva e solidária. Seu ideal de convergência conjuga os imperativos de hoje que amalgamam a exigência moral de dignidade e de eqüidade, a exigência da paz e da segurança, o interesse econômico e a preservação do futuro.
Em; O Eco de Teilhard de Chardin -por Jacques Chirac"

Penso que nunca tivemos tanta Inteligência apontando para a solução do conflito humano, e vem de longe a simplificação - desde O Sermão da Montanha temos a verdade em nossas mãos, não para mera leitura, mas para ser praticado por todos e principalmente pelos que se dedicam à instrução e divulgação da Teologia - Deus e o homem não podem competir, mas docilmente final e definitivamente agirem integrados ,para que se cumpra nossa verdadeira razão de existir.

Anônimo disse...

César, você deve estar imbuído da maior boa-vontade do mundo ao defender a Teologia da Libertação, mas se esquece de algo básico: essa ideologia tem sim origem no pensamento marxista e realmente prega a construção de um paraíso terreno. Caro, isso nunca vai ocorrer, absolutamente nunca, e se você buscar conhecer a Tradição da Igreja que você considera uma outra Igreja, você verá que essa ideologia foi condenada porque desfigura completamente o cristianismo reinterpretando-o totalmente. Isso é típico do pensamento revolucionário que quer "destruir tudo" para "construir uma ordem nova e superior" à antiga. Nesse processo, os adeptos da TL não hesitam nem mesmo em reinterpretar (MUDANDO) tudo o que a Igreja ensina há 2 mil anos. Ver pessoas boas pensando assim realmente me preocupa. É sinal de que a Igreja continua sendo atacada astuciosamente por Satanás (se é que você ainda crê que ele exista).

Redentoristas disse...

O que muito me preocupa é a ignorância acerca de temas importantíssimos da área da Teologia e sobre conteúdos básicos sobre a fé. Quem diz que a Teologia da Libertação diz o contrário do que pensa a Igreja é atestar que nunca leu os Evangelhos. O céu começa aqui ("O Reino já se encontra entre vocês"). A salvação é graça, ninguém a receberá pelos próprios merecimentos. QUem não contextualiza a Palavra, vira-se contra ela.
Precisamos pregar boas notícias, o que enfraquece o "coisa ruim". Se ele continua rondando por aí, então foi uma mentira a pena a ressurreição de Jesus? Muita gente precisa do diabo para controlar o comportamentos morais, ao invés de orientar as pessoas para serem responsáveis pelo seu destino, colocando-se abertas nas mãos de Deus, fazendo vítimas de um cristianismo fácil e enganoso.

Quecrise Existencial disse...

Que pena, gente inteligente e manipulada por seus lideres que nada professam, que sentem se os salvadores da pátria, enquanto dela se locupletam com o apoio dos inocentes que formam a massa ignara que vota em troca de uma cesta!