A sociedade converteu-se num imenso palco iluminado por refletores multicoloridos. Nele, as pessoas tornam-se personagens, desempenham papéis, buscam a eficácia de verdadeiros atores em cena. O conceito de performance ilustra bem esse cenário onde a ação pressupõe uma platéia ávida e passiva, com seus respectivos aplausos ou vaias, palmas ou assobios.Nessa perspectiva, facilmente a função se sobrepõe à pessoa. Ou melhor, esta se fragmenta em uma série de funções, não raro desconectadas. As diferentes atividades e responsabilidades tendem a apresentar um quadro dispersivo. Como uma roda sem eixo, o ser humano sofre uma profunda divisão interior, uma espécie de descentração, em que os distintos raios encontram-se soltos uns em relação aos outros. Perde o foco central da própria existência.
Resulta daí o cansaço e o estresse crescente. Porém, o que realmente estressa não é tanto o peso ou excesso de trabalho, e sim a falta de articulação entre as diversas tarefas a serem levadas adiante. O volume de trabalho, em geral, não mata ninguém! O que debilita a energia vital é o fato de a pessoa comporta-se como ator no teatro da vida, ocupada e preocupada com vários papéis ao mesmo tempo. Nem sempre tais papéis estão interligados entre si, o que requer uma provisão de "máscaras" para os momentos mais variados.
Cada encontro, cada atividade ou cada compromisso exige não apenas determinada camisa, gravata, vestido ou indumentária própria. Também é necessário revestir-se da personagem a ser desempenhada. Antes de entrar no palco, o ator tem de passar pelos bastidores e retocar a própria imagem em vista do novo público. A variedade das personagens e a velocidade com que temos de trocar de "máscara" levam com frequência à dispersão e à desconcentração. Passa por aí o culto hodierno ao corpo e às celebridades.
Evidente que o sacerdote ou religioso/a não está imune a esse imperativo da "sociedade do espetáculo" (Guy Debord). Como personagem público, ele ou ela também são convidados diariamente às mais diferentes funções. Estas, de tão múltiplas e diferenciadas, podem fazer esquecer a pessoa e a vocação a que fomos chamados. Descentrados, tendemos a correr laboriosamente atrás de capacitação técnica e específica, com o afã de acumular os títulos de mestrado, pós-graduação e doutorado correspondentes.
Não podemos ignorar, evidentemente, que o estudo e o aprofundamento teórico e tecnológico constituem ferramentas necessárias. Numa sociedade tão complexa e diversificada como a de hoje, tais ferramentas servem a uma evangelização mais aberta, plural e eficaz. "O mundo anda depressa e nós não podemos ficar parados", diria Scalabrini! É necessário contar com todos os instrumentos e mecanismos necessários à propagação da Boa Nova de Jesus Cristo.
O problema se coloca quando a função substitui o ser pessoa, o meio se converte em fim, as ferramentas acabam sendo absolutizadas. Claro que todo ser humano é chamado a desempenhar uma função, a escolher seu caminho na vida pessoal e na história. Mas essa função não esgota o ser pessoa, que tem a ver com a vocação e a superação permanente de si mesmo.
Diferentemente do que nos impõem as leis de mercado, o ser humano não se reduz ao que é capaz de fazer, de produzir ou de consumir. Não se reduz à matemática dos resultados que pode ou não obter. A medida do cálculo exato não abarca todas as dimensões da pessoa. Impossível utilizar a balança ou o metro para valorizar as paixões, os sentimentos ou a intensidade de uma vocação humana levada às suas últimas consequências.
A pessoa humana se realiza, antes de tudo, na relação simultânea e dialética consigo mesma, com a natureza, com os outros e com o totalmente Outro. É nessa abertura a uma aprendizagem permanente que cada homem e cada mulher podem superar suas fraquezas e limitações, aprofundar-se num crescimento recíproco. Aqui o silêncio e a escuta, a oração e a contemplação constituem ingredientes indispensáveis. Trata-se de uma relação dialógica de dupla dimensão. Por um lado, a pessoa é convidada a sair de si mesmo e confrontar-se com o exterior (ex-sistere); por outro, retorna ao seu interior com novos elementos de autoconhecimento e de auto-superação. Neste processo, a dispersão e fragmentação humana podem reencontrar um novo centro ou novo foco da vida, que lhe confirma a razão da própria existência.
Numa palavra, se quero encontrar a mim mesmo, tenho de passar pelo olhar do outro e de Deus, como espelhos de luz nos quais se reflete a minha imagem; se quero encontrar o outro e o totalmente Outro, tenho de recolher-me em mim mesmo, para ouvir suas vozes silenciosas no fundo de minha alma. O caminho para chegar até mim passa pelo encontro com o outro (Levinás). Nesta circularidade relacional, água e sede se encontram e se complementam. E somente então a pessoa poderá resgatar a alegria, o entusiasmo e a plenitude de sua vocação.
Em síntese, o encontro e reencontro constante e aberto - comigo mesmo, com as coisas, com o outro ou com Deus - naturalmente irá produzir ações renovadas, criativas, libertadoras. Já o contrário nem sempre é verdadeiro, ou seja, a multiplicação de atividades, quando dispersas, fragmentadas e descentradas, nem sempre conduzem a um encontro vital de realização. Daí a importância de ter em conta o eixo, o foco de nossa vida e de nossa vocação: a intimidade com o Pai, o caminho de Jesus Cristo e a abertura ao pobre, indefeso, migrante, refugiado, etc. Nada mais do que "amar a Deus e amar ao próximo"!
Pe. Alfredo J. Gonçalves - Assessor das Pastorais Sociais.


Nenhum comentário:
Postar um comentário