sábado, 13 de março de 2010

MULHERES E HOMENS NA IGREJA DE HOJE: UMA COLABORAÇÃO ANTIGA E NOVA

"Se nos séculos passados a Igreja se demonstrou, de fato, mais aberta com relação às mulheres do que o mundo profano, hoje a situação se reverteu, e as pressões externas e internas, para que o problema seja enfrentado no âmbito católico, são fortes e urgentes."

Essa é a opinião de Lucetta Scaraffia, historiadora e jornalista italiana, professora da Università degli Studi di Roma La Sapienza e colunista do jornal L'Osservatore Romano, 11-03-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.
As mudanças das sociedades ocidentais que abriram às mulheres os espaços antes reservados aos homens – mudanças que estão influenciando as outras culturas do mundo – provocaram uma revolução na configuração dos papéis sexuais, colocando também para a Igreja Católica a questão da ampliação do papel das mulheres.

Trata-se de um problema de igualdade que a tradição cristã teve bem claro desde as origens, levando-a a iniciar uma autêntica revolução com relação ao modo de conceber a diferença sexual.

Por sua vez, essa mudança radical está na origem da revolução feminina contemporânea, que se realizou nas sociedades ocidentais. Mas se nos séculos passados a Igreja se demonstrou, de fato, mais aberta com relação às mulheres do que o mundo profano, hoje a situação se reverteu, e as pressões externas e internas, para que o problema seja enfrentado no âmbito católico, são fortes e urgentes.

Até agora, a resposta católica se articulou principalmente no plano teórico, diferentemente da sociedade laica, na qual as mudanças foram teorizadas enquanto ocorriam e, portanto, com pouca consciência dos riscos que muitas dessas inovações revolucionárias poderiam trazer, como, por exemplo, a queda demográfica.

A atitude da Igreja oferece uma vantagem inicial, porque é clara a linha escolhida, segundo a qual se deverá mover a abertura a uma maior presença feminina: a "Mulieris dignitatem" de João Paulo II lembrou, de fato, como devem ser atribuídos às mulheres papéis de igual importância, embora de natureza diferente, aos dos homens na vida da Igreja, e o princípio foi retomado também pelo cardeal Ratzinger, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, na "Carta aos Bispos da Igreja Católica sobre a colaboração do homem e da mulher na Igreja e no mundo".

O problema, porém, é que a essa importante elaboração teórico não se seguiu com a mesma clareza uma transformação na participação feminina na vida da Igreja, ou, pelo menos, a participação, que se ampliou significativamente, se manteve quase sempre fora das esferas decisórias e dos âmbitos de elaboração cultural. Pode-se entender, assim, como a pressão das excluídas – muitas vezes, além disso, sem razões de mérito – pode se fazer sentir, mesmo que submissamente. Não é só um problema de justiça social, de "oportunidades iguais", porque assim a Igreja corre o risco de não fazer frutificar energias e contribuições muitas vezes de primeira importância.

Basta um exemplo: nas dolorosas e vergonhosas situações em que são reveladas moléstias e abusos sexuais por parte de eclesiásticos sobre jovens a eles confiador, podemos hipotetizar que uma maior presença feminina não subordinada poderia rasgar o véu de silêncio masculino que muitas vezes, no passado, cobriu a denúncia dos delitos. As mulheres, de fato, tanto religiosas, quanto leigas, seriam, por natureza, mais inclinadas à defesa dos jovens em caso de abusos sexuais, evitando à Igreja o grave dano que essas atitudes culpáveis lhe causaram.

Daniele Comboni, que foi beatificado e canonizado por João Paulo II, por exemplo, havia de algum modo percebido isso, na segunda metade do século XVIII. Empenhado na dificilíssima tarefa de organizar as missões cristãs no atual Sudão, onde quase nenhum europeu ainda havia se aventurado, ele logo entendeu que o seu projeto não podia ser realizado sem a presença feminina consagrada. Buscou, assim, entre milhares de dificuldades, fundar uma congregação de missionárias dispostas a ir a lugares tão selvagens e perigosos, com uma escolha motivada por muitas razões: as religiosas, de fato, eram mais tenazes e se inseriam mais facilmente nas culturas diferentes.

Além disso, o grande missionário estava convencido de que a presença de mulheres ocidentais ao lado dos seus missionários lhes ajudaria a manter um comportamento correto e principalmente lhes impediria de infringir o voto de castidade, perigo não infrequente em lugares isolados, onde a promiscuidade sexual e principalmente o poder com relação às mulheres e jovens tornavam a tentação não improvável. De fato, Comboni escreve que a irmã é "essencial" para as missões, porque "é uma defesa e uma garantia para o missionário".

Esse exemplo histórico, portanto, indica uma possibilidade, dentre as tantas realizáveis, de colaboração e de ajuda recíproca que mulheres e homens podem intercambiar na vida da Igreja a serviço da pessoa humana. De fato, quase não existe congregação religiosa que não contemple, ao mesmo tempo, além do ramo masculino, também aquele feminino, por causa daquele intuito que entrevia justamente no papel da mulher consagrada um dom do qual só ela pode ser portadora.

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