sexta-feira, 19 de março de 2010

A CARTA AO CLERO ESTÁ PRONTA.

Hoje é a assinatura e amanhã, a publicação. Há “muita expectativa” no Vaticano, mas também “uma forte sensação de libertação”, como se ouve num diálogo feito dentro dos muros do Vaticano pela publicação da Carta pastoral de Bento XVI aos católicos irlandeses.

A Santa Sé está ansiosa em se defender no que se refere aos casos de pedofilia no clero. Mas, sobretudo, difundindo o pensamento do Papa, aponta para “recolocar o leme na direção correta”, sinalizando atuações para a própria liderança da igreja da Irlanda e onde os escândalos estão minando a confiança dos fiéis.

Precisamente por isso o documento conterá, além de conceitos como “desculpas”, “arrependimento” e “renovação”, não somente considerações religiosas mas “indicações práticas” sobre o modo de sanar a praga.

O Papa, na manhã de hoje, assinará o documento, convicto de estar dando um passo que todo o mundo católico espera com trepidação, pela mensagem universal que a Carta terá, bem além das fronteiras irlandesas. O pontífice parece estar abalado pelos acontecimentos e sua repercussão.

Há dois dias Bento XVI está examinando com atenção o comentário do teólogo suíço Hans Küng, sempre muito crítico com o Vaticano, publicado na página dois do jornal Sueddeutesche Zeitung, de Munique, que o Papa conhece muito bem desde os tempos de em que era arcebispo de Munique e que lê todos os dias depois de ter lido o Frankfurter Algemeine, jornal mais conservador.

Ontem de manhã viu novamente o artigo publicado no jornal La Repubblica, dizendo-se “desiludido e amargurado” pela dureza das posições do teólogo, que o chama à “responsabilidade” sobre os silêncios da Igreja nos casos de abusos sexuais praticados por sacerdotes, pedindo que ele faça o seu “mea culpa”.

O artigo de Küng não somente atingiu o Papa. Igualmente a Conferência Episcopal Italiana – CEI – liderada pelo arcebispo de Gênova, o cardeal Ângelo Bagnasco, se manifestou estupefata, como afirma uma fonte interna, “pelo ataque dirigido diretamente ao pontífice”, por Küng.

Uma posição, tenta-se explicar, que poderia ter os seus motivos em “incompreensões que remontam ao passado entre os dois”, o Papa conservador e o teólogo progressista.
Por sua vez, o jornal Frankfurter Allegemeine, publicou ontem, em página inteira, com vistosa chamada de primeira página, uma reportagem sobre abusos sexuais no convento beneditino Koenigsmuenter, em Meschede, na Alemanha.

“Não se trata mais de ter misericórdia. De agora em diante, a Igreja denunciará todos os casos, mesmo os suspeitos, à justiça”, afirmou o arcebispo de Munique e Freising, Reinhard Marx. “Precisamos tirar todas as consequências do mal atual”, concluiu.

A reportagem é de Marco Ansaldo e publicada pelo jornal La Repubblica, 19-03-2010.

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