sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

FÓRUM SOCIAL MUNDIAL 10 ANOS!

Corria o ano de 2000, início de século e milênio. Anuncia-se para 2001 a realização do 1º Fórum Social Mundial (FSM) em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil, América do Sul. Agitação, mobilização, entusiasmo. Quem estava em ONGs como eu (no CAMP - Centro de Assessoria Multiprofissional) e participava da ABONG apressou-se a estar presente em tudo e engajar-se na organização. Afinal, uma luz no fim do túnel.

Ninguém mais agüentava o neoliberalismo reinante há mais de década. Em Porto Alegre e no Rio Grande do Sul, então governados pelo PT, terceiro governo municipal, primeiro estadual, corria o ceticismo quando não oposição na grande mídia, no meio empresarial e na classe média radicalmente antipetista. Como assim Porto Alegre no centro do mundo? Que é isso de Fórum Social Mundial, as esquerdas se reunindo e querendo o que? Por acaso, pretendem implantar as políticas do PT e da esquerda em tudo que é lugar?Era um período de disputa política dura, não só no Rio Grande do Sul, mas no mundo.

A hegemonia do pensamento neoliberal estava consolidada. Aqui e ali, alguns poucos governos de esquerda ou centro-esquerda. Parecia que qualquer possibilidade de transformação estava previamente condenada ao fracasso. Movimentos sociais sufocados, alguns se acomodando na burocracia e na pasmaceira geral, os arautos do Estado mínimo e da privatização surfando em cima e por cima de qualquer pensamento e prática que pudessem pensar e propor um mundo e um modelo diferentes. Por outro lado, o mercado livre e absoluto, sem freios nem medidas, e seus valores individualistas e consumistas, começavam a fazer água. Não só não estavam resolvendo os problemas da humanidade quanto aumentavam a pobreza, a fome, o desemprego a concentração de renda.

As políticas sociais compensatórias já não davam conta de enfrentar os problemas sociais. Aqui e ali surgiam reações e alternativas, em geral isoladas e de pouco fôlego. Era o caso de Porto Alegre e do próprio Rio Grande do Sul, com sua proposta de Orçamento Participativo, de políticas públicas com participação popular, de um modelo econômico baseado na micro, pequena e média empresa e na presença do Estado indutor e protagonista do desenvolvimento local.

O lema do FSM -Um outro Mundo possível- unificou o pensamento de tantas vozes e experiências dispersas de todos os tipos que se espalhavam por comunidades, países e continentes. Reuni-las, vozes e experiências, num só lugar, contrapondo-as ao Fórum Econômico Mundial de Davos que acontecia há anos na Suíça, onde se encontravam os poderosos, empresários e governantes, foi uma idéia fértil e uma proposta generosa de (re) unificar os revolucionários, os que acreditavam na mudança, os que mantinham vivos o sonho e a utopia. Realizou-se o Fórum, dezenas de milhares de participantes vindos de todos os cantos do planeta, uma grande festa e celebração.

Ao final, até os setores conservadores, a começar pelos donos de hotéis e restaurantes, que inicialmente eram contra e desconfiavam do Fórum, passaram a elogiá-lo. Era, afinal, uma ocupação de espaço e de realização de lucros em tempos de férias e de pouco movimento no comércio e no setor de serviços. Passaram-se 10 anos. O Fórum aconteceu em vários lugares, suas idéias se esparramaram, o neoliberalismo fez água, governos de esquerda, centro-esquerda e progressistas foram sendo eleitos, especialmente na América Latina, vários presidentes começaram a marcar presença nas suas últimas edições. Que esperar agora? Quais são os desafios do próximo período?

Os problemas do mundo não se resolveram. Houve avanços aqui e ali. Há espaço para voltar a discutir alternativas de projeto de sociedade e modelos de desenvolvimento. Mas o capitalismo está longe de ser superado, ainda que a partir de 2008 uma grave e enorme crise econômica e social tenha se abatido sobre o mundo inteiro, ainda não superada. Há os pessimistas. Nada avançou, a maioria dos governos que aí está rendeu-se de uma forma ou outra ao capital e seus valores. Há os otimistas como eu que vêem que o futuro está em construção. Não muitas vezes do jeito exato que se queria ou esperava, mas o monolitismo de um único pensamento começa a ser quebrado.

Experiências de base, em comunidades, em diferentes setores sociais, as contradições do modelo em crise, as ameaças ambientais abrem espaço ou ‘obrigam’ a repensar o modelo capitalista e sua forma neoliberal. Há sinais de esperança. O Fórum Social Mundial, festejando seus 10 anos no Rio Grande do Sul, cumpriu e cumpre um papel de reunir os que sonham com o novo, os lutadores sociais, os que buscam a transformação. A roda da história segue girando e os pobres e trabalhadores, todos e todas que acreditam na justiça social, na solidariedade seguem construindo um outro mundo possível.

Silvino Heck - Assessor Especial do Presidente da República do Brasil. Da Coordenação Nacional do Movimento Fé e Política
José Aparecido dos Santos – CNLB – CONSEG -- COMSEP – Assis-sp

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