segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

OS 100 ANOS DE NASCIMENTO DO MOVIMENTO ECUMÊNICO

"O ano de 2010 marca o primeiro centenário de nascimento do movimento ecumênico, uma experiência de diálogo fraterno, teológico, pastoral e eclesial, entre as diferentes comunidades cristãs. Uma experiência da evolução tudo menos fácil, marcada por etapas exaltantes e por pausas mortificantes, mas ainda hoje viva e fecunda."

A opinião é de Gianfranco Ravasi, presidente do Pontificio Conselho da Cultura, em artigo publicado no jornal Il Sole-24 Ore, 17-01-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Do dia 18 a 25 de janeiro de cada ano, celebra-se a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, seguindo a invocação de Cristo na última noite de sua vida terrena, quando no Cenáculo ele rezou assim: "Pai Santo, guarda-os em teu nome, que me encarregaste de fazer conhecer, a fim de que sejam um como nós" (João 17, 11).

Bem conhecida é, de fato, a fratura que, na história se ramificou até o ponto de criar um número enorme de diversas denominações cristãs. Essa semana foi lançada por um anglicano, que depois se tornou católico, Paul Wattson, em 1908, e se estendeu sempre mais nas várias confissões cristãs com base em um tema comum renovado a cada ano. No que se refere a 2010, o texto de base são as palavras do Cristo ressuscitado: "Vós sois as testemunhas destas coisas" (Lucas 24, 48).

Se destacamos esse evento principalmente eclesial, fazemo-lo por uma outra razão: 2010 marca também o primeiro centenário de nascimento do movimento ecumênico, uma experiência de diálogo fraterno, teológico, pastoral e eclesial, entre as diferentes comunidades cristãs. Uma experiência da evolução tudo menos fácil, marcada por etapas exaltantes e por pausas mortificantes, mas ainda hoje viva e fecunda.

Mas voltemos a essa fonte explícita: dizemos "explícita" porque, desde sempre, no cristianismo, houve diálogos e confrontos, melhor, ocorreram também reconciliações e uniões. Na época moderna, porém, se colocaram as bases de um método ecumênico: o vocábulo de matriz grega indica toda a terra habitada e quer expressar o porte universal – se se quiser, "católico", no sentido etimológico do termo grego que designa totalidade – desse compromisso da cristandade.

A data simbólica de início foi colocada idealmente em junho de 1910, quando, em Edimburgo, realizou-se a Conferência Missionária Mundial de matriz protestante. Uma das oito comissões daquela assembleia de 1.200 delegados tinha como tema justamente a "cooperação e a promoção da unidade", enquanto um "Comitê de continuação" se tornava a estrutura operativa permanente desse compromisso.

Por trás desse evento, havia um desejo unitário que perpassava outras instituições protestantes como a Aliança Evangélica, nascida em Londres em 1846, e a Young Men Christian Association (YMCA), que havia se constituído em um primeiro grupo, também em Londres, em 1844, para depois se estender também aos Estados Unidos.

Por isso, a gênese do movimento ecumênico teve, inicialmente, uma origem protestante, e a finalidade era a de um ecumenismo interno à variada galáxia daquelas dominações. O estímulo, depois, vinha principalmente do âmbito missionário e das novas comunidades africanas e asiáticas. Na Conferência de Edimburgo, teve grande escuta a voz de um delegado chinês, Cheng Chingyi, que expressava a sua esperança "em um futuro próximo com uma Igreja cristã unida, sem nenhuma distinção denominacional... Porque a Igreja de Cristo é universal, além das denominações e das nacionalidades".

Um evento capital desse itinerário foi a constituição em Amsterdã, em 1948, de um Conselho Ecumênico das Igrejas (CEC), ao qual 349 Igreja protestantes, anglicanas e ortodoxas estão associadas atualmente. A Igreja Católica – que no início seguiu com muita reserva, hesitação e perplexidade o Conselho e a sua obra –, após o Concílio Vaticano II, começou a participar ativamente nele, e desde então o diálogo ecumênico católico teve um impulso muito férvido, com uma trama feita de relações e de documentos interconfessionais que, na Itália, foram reunidos nos vários volumes do "Enchiridion Oecumenicum", publicado pelas edições Dehoniane de Bolonha.

Particular destaque no âmbito católico teve a constituição de um verdadeiro dicastério vaticano dedicado a essa tarefa: trata-se do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos (1989), que surgiu do Secretariado para a União dos Cristãos, criado por João XXIII em 1960, como apoio preparatório ao Concílio Vaticano II, e que teve como presidentes duas altas figuras do ecumenismo católico, o cardeal Agostino Bea e Johannes Willebrands. Hoje, quem dirige o Pontifício Conselho é um outro importante teólogo alemão, o cardeal Walter Kasper.

Certamente, não é possível traçar aqui a história do ecumenismo moderno com os seus altos e baixos, mas também com a sua rica pesquisa teológica que sempre teve na Bíblia a ideal e real "lâmpada para os passos no caminho" da vida cristã, para usar a imagem do Salmista (119,105). Quer-se indicar, pelo contrário, um nó difícil de ser desfeito, e não há hesitações ao identificá-lo na eclesiologia.

A experiência ecumênica entre católicos, ortodoxos, protestantes e anglicanos continua sendo, porém, um capítulo decisivo na agenda de todas as Igrejas e denominações, excluídos alguns grupos fundamentalistas que optam, ao invés, por um proselitismo agressivo. É testemunha documentária disso o Dicionário do Movimento Ecumênico, publicado pelo World Council of Churches em 1991 (Ed. Dehoniane, 1994), um texto que obviamente exige uma posterior atualização.

No entanto, ressoa sempre urgente uma advertência paulina a se "conservar a unidade do Espírito por meio da paz: um só corpo, um só espírito, uma só esperança, um só Senhor, uma só fé, um só batismo, um só Deus e Pai de todos" (Efésios 4, 3-6).

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