Minha primeira impressão ao assistir pela TV as cenas da queda da Matriz de SLP foi de perplexidade e solidariedade ao povo luizense. Logo após, a vontade era de fazer algo mais que simplesmente doar alimentos ou roupas usadas, era preciso estar fisicamente presente, ajudando, participando afetivamente daquele momento de dor, levando serenidade e força para o possível recomeço. Afinal de contas a afinidade e ligação do taubateano com o povo luizense e suas raízes são cheias de significado: sua religiosidade popular, sua música, suas festas, o “fogado”. Após varias tentativas de contato por email, telefone, orkut, etc consegui finalmente o aval para atuar voluntariamente na assistência aos desabrigados.
Ao chegar em SLP no dia 06 de janeiro acompanhado de mais 07 voluntarios, representando a Cáritas Diocesana e também o CNLB-Taubaté o sentimento era de ansiedade pelo que nos esperava. Ao adentrar a cidade pelo acesso à cidade de Lagoinha, passando pelos postos de controle da PM e Exército e sermos identificados na Igreja S. Benedito, primeiro posto de comando, a primeira sensação foi o mal cheiro exalado devido as inundações e o vai vem das famílias tentando limpar todo aquele lodo.
Na praça principal porém a tragédia se mostraria nua e crua: além da Matriz de São Luiz de Tolosa totalmente prostrada, todo casario do lado direito estava em escombros: familiares andavam por sobre os destroços tentando resgatar alguma lembrança de família ou ao menos os documentos pessoais. Parecia que um bombardeio aéreo tinha tingido nossa cidade irmã tamanha a destruição observada. Nas demais ruas, além dos escombros e carros soterrados já se observava os restos de móveis, de mantimentos, de objetos pessoais, etc oriundos do interior do que sobrara das casas e comércio luizenses atingidos pela histórica e nunca antes observada “invasão das águas”, aproximadamente 15 metros acima do nível normal. Nessa região e principalmente próximo ao Mercado Municipal o odor era quase insuportável, o que forçava alguns moradores a usarem mascaras, devido ao apodrecimento de carnes e outros alimentos estragados pelas chuvas e consequente falta de energia elétrica. Toda rede telefônica foi simplesmente destruída o que exige novamente toda sua implantação. Politiqueiros e políticos de plantão circulavam por entre os destroços desfiando suas promessas ocas ou simplesmente fotografando o caos sabe-se lá para qual objetivo.
Passado o trauma inicial e a vontade de chorar com o povo, chegamos ao nosso local de voluntariado, a Igreja do Rosário, próxima à casa do Pe. Edinho, a casa paroquial que agora se transformara em casa de acolhida de todos que por ali passassem em busca de água, comida, roupas ou uma simples conversa, uma atenção especial e serena para aquele homem ou mulher quase derrotados.
O corre-corre dos voluntários na Igreja do Rosário, agora também um deposito de todo e qualquer material básico de sobrevivência, era constante. Assim como também a necessidade de se entenderem, se conhecerem e poder realizar um trabalho comprometido e sério pelas circunstancias, mas também gratificante e realizador. Separar roupas e sapatos por tamanho e sexo, descartar aqueles infelizmente doados sem nenhuma condição de uso, ajudar na cozinha, descarregar caminhões de doação, montar cestas básicas de alimentos, material de limpeza, etc eram algumas de nossas atribuições, além é claro de atender ao povo carente que chegava de todo canto solicitando ajuda.
À noite, mesmo depois de tanto sofrimento, a alegria luizense aflorou numa roda de viola, com canções tradicionais da Folia de Reis lembrando a todos que hoje é Dia de Santos Reis. Parecia que tudo era como antes, a tristeza dava lugar à cantoria e anunciava a perseverança de um povo forjado na luta, que teima em não desistir, esperançoso em reconstruir SLP.
A primeira missa após o desastre, no dia 07 de janeiro, foi emblemática. Era impossível segurar as lágrimas perto de tamanha emoção pela alegria da vida preservada, mas ao mesmo tempo despedindo de uma história que se foi e não volta mais. O largo da Igreja do Rosário estava repleto de gente, entremeada por jornalistas e fotógrafos de vários órgãos da imprensa nacional interessados em noticiar a tragédia e a resistência dessa gente.
O povo não tem mais nada, tudo é distribuído: roupas, alimentos, água, medicamentos, gás de cozinha, produtos de limpeza. Parece um grande campo de concentração, vistos por mim antes somente pela TV, onde os famintos estão sempre famintos e sempre buscando algo mais.
Na principal tarefa do dia, a entrega de colchões e kits de limpeza diretamente nas casas, encontrava pessoas sofridas mas agradecidas pelo apoio. Sentiam-se reconfortadas por tão pequeno empenho. Cruzando a cidade por meio de um transito caótico, devido a queda de barreiras e árvores, pudemos testemunhar mais uma vez a carência e gratidão das pessoas para conosco, agradecendo imensamente por simplesmente visita-las oferecendo ajuda e apoio. Mesmo assim o sentimento é que muito pouco fizemos perto de tamanha desgraça e sofrimento. O povo continua assustado, qualquer barulho mais alto os aterroriza e os amedronta, num sinal claro de como estão abalados e traumatizados. Contam detalhes de como abandonaram suas casas de madrugada, pegando somente o mais necessário, os animais abandonados e mortos na enchente, o horário preciso de queda das torres da Igreja e o último badalar dos sinos às 10 horas de 1º de janeiro, os ruídos da destruição e o bravo trabalho realizado pelas equipes de Rafting que evitou um número muito expressivo de vítimas fatais ainda permeiam o sono e o fechar dos olhos dos luizenses.
Agora só resta esperar o tempo passar e reconstruir a terra de Oswaldo Cruz, Aziz Ab’Saber e Elpídio dos Santos. O tempo curará as feridas e trará de novo a garra e a reconstrução das estruturas físicas, mentais e afetivas. Fica a lição que a natureza está cobrando sua conta. Nem devia citar que absolutamente não é castigo de Deus, mas sim reflexo da ação do próprio homem que não respeita a lei ambiental construindo e ocupando áreas de preservação permanente – APP, substituindo a mata natural por pastagens ou pela monocultura do eucalipto, etc, tratando a Mãe Terra como se fosse descartável e sem valor, quando na verdade só respeita o lucro e o prazer.
Era necessário retornar para casa, mas meu o coração ficou em São Luiz. Cabe principalmente ao luizense a reconstrução de sua cidade, mas a nós seus diocesanos temos a responsabilidade de apoiar e assisti-los neste momento difícil. E esse apoio deve ser efetivo, prático, não somente por discursos ou palavras. Quanto aos agradecimentos, eu que devo fazê-lo aos luizenses: obrigado por ser mais uma formiguinha nesse exército que se forma em seu socorro. Na verdade recebi mais que doei, foi uma lição de vida.
Ronaldo Santos – professor, biólogo
Presidente do CNLB-Taubaté
Tesoureiro da Cáritas Diocesana


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