O papa Bento XVI convocou um “Ano Sacerdotal” para promover a santificação dos sacerdotes. Esta convocatória foi feita por ocasião dos 150 anos do nascimento do Santo Cura d’Ars, padroeiro dos párocos. E é celebrado desde a festa do Sagrado Coração de Jesus de 2009 (19 de junho) e vai até a mesma festa em 2010 (11 de junho). Estamos, pois, quase na metade do ano que, por desejo do Papa, a Igreja católica quer dedicar ao cuidado e à melhor formação possível dos sacerdotes.
A reflexão é do teólogo espanhol José Maria Castilho, publicada em seu blog Teología sin censura, 16-11-2009. A tradução é do Cepat.
Evidentemente, as preocupações de Bento XVI com os sacerdotes católicos são perfeitamente compreensíveis. O Papa tem motivos para estar preocupado com a situação que atravessa o clero. A crescente escassez de vocações sacerdotais e os escândalos, a que deram motivo tantos padres e tantos religiosos, são justificativas suficientes para as preocupações do Pontífice nesta ordem de coisas.
Mas, se quisermos ir sinceramente à raiz das coisas, a pergunta que é preciso enfrentar, neste ano dedicado ao sacerdócio na Igreja é se o problema do clero vai se resolver promovendo a santificação dos sacerdotes ou se a questão que temos que resolver não é muito mais radical: realmente, Jesus Cristo quer que haja sacerdotes na Igreja? A pergunta é inteiramente lógica. Porque nem nos evangelhos nem em todo o Novo Testamento se diz em lugar algum que Jesus instituíra um sacerdócio ou que nas igrejas fundadas pelos apóstolos houvesse “sacerdotes”. Na Igreja se começou a falar de “sacerdotes” no século III. Que quer dizer isso? É que nem Jesus, nem os Apóstolos, nem os primeiros cristãos se deram conta da importância do sacerdócio? Ou será que se trata de uma questão meramente semântica, ou seja, que naquele tempo os sacerdotes eram chamados com outros nomes?
Deste assunto tão sério e de tão sérias consequências, falaremos nos próximos dias. Mas já advirto uma coisa que me parece fundamental. Não se trata de atacar a Igreja ou a sua estrutura hierárquica. Trata-se de repensar se o que está mais de acordo com as intenções e a vontade de Jesus, o Senhor, é que a estrutura da Igreja seja a estrutura sacerdotal e clerical, que temos, ou se o mais coerente com o Evangelho de Jesus Cristo é outra forma de organização da Igreja. Até o século III, a Igreja funcionava de outra maneira. Por que não vamos ter a liberdade e a audácia de pensar seriamente se não teríamos que voltar às origens do Cristianismo? Esta é a questão.


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