terça-feira, 21 de junho de 2011

A SEPARAÇÃO DOS GÊNEROS ENTRE OS LEIGOS: A QUESTÃO DAS LEITURAS

A Igreja Católica é uma estrutura patriarcal, e o status dos leigos será decidido por homens.

A opinião é de S. de Chalus, em artigo publicado no sítio do Comité de la Jupe, 16-06-2011. O comitê é uma organização católica independente com mais de 300 membros leigos, religiosos e sacerdotes da França e da Bélgica. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Os Padres do Concílio Vaticano II quiseram dar aos leigos uma parte ativa na celebração da missa. A liturgia foi, assim, reformada com o missal de Paulo VI, e desenvolveu-se a teologia dos leigos. Nos anos pós-conciliares, havia o clero, masculino – bispos e padres –, e os fiéis leigos em uma relativa indiferenciação. A função do leitor era desenvolvida por homens e mulheres, jovens e crianças, e os padres buscavam equilibrar a distribuição das tarefas em função da composição da assembleia e das circunstâncias.

Sob a influência dos tradicionalistas, e também pela necessidade de voltar ao sentido do sagrado em um mundo desencantado, voltou-se a formas mais antigas, e certas correntes também têm desejado uma reforma da reforma litúrgica. A tendência foi a de caçar as mulheres, de afastá-las do altar, como ressalta o padre Joseph Moingt (1), e o status das mulheres na liturgia foi uma aposta entre as tendências de sensibilidades diferentes.

Sabendo-se quais garantias foram oferecidas aos tradicionalistas, a visibilidade das mulheres só poderia diminuir, senão até desaparecer. Isso no que se refere às meninas que servem ao altar e às mulheres que distribuem a comunhão, duas funções que tinham uma dimensão cultual. Era algo que se podia deplorar – e fomos muitos os que fizeram isso –, considerando que era uma regressão, compreendendo também que milênios de cultos sacrificiais realizados só por homens pesavam sobre as representações e sobre as práticas litúrgicas.

Para as leituras que precedem ao Evangelho, trata-se de uma coisa totalmente diferente, pelo menos na nossa civilização, em que os fiéis de ambos os sexos são instruídos. É do interior da assembleia que fiéis se levantam do meio dos leigos. Estabelecer aqui uma distinção entre os gêneros, excluir as mulheres, como se vê sempre mais frequentemente, significa atentar gravemente contra a sua dignidade, a de serem pertencentes à natureza humana, de seres de fala e de razão.

A situação é então vivida como alienante. A palavra é desprezível, mas é o termo apropriado. O pensamento diferencialista é assim levado ao extremo, em detrimento da nossa humanidade comum. O gênero se torna, então, um critério determinante entre os leigos, em termos de funções, já que os homens fazem parte da dimensão sacerdotal apenas pelo fato do seu pertencimento ao gênero masculino, independentemente de qualquer ordenação. A dignidade da função sacerdotal de todos os batizados, evidenciada pelo Concílio Vaticano II, permanece desconhecida.

Somos muitos os que ratificam plenamente os valores universalistas herdados pela filosofia dos Iluministas – e que me parecem ser de origem cristã. Somos muitos os que também pertencem à Igreja Católica e que lhe outorgam a nossa confiança, como mediação para nos conduzir a Deus. Mas hoje essa relação de confiança está alterada, por razões antropológicas e estruturais que não dizem respeito ao essencial da fé. A Igreja Católica é uma estrutura patriarcal, e nosso status será decidido por homens.

Mas é pedir muito que se exijam textos de referência claros, sem margem de interpretação atual e sem as indicações secretas que pressupõem e que são cercadas por grande opacidade? É pedir muito que se deseje a retomada e o aprofundamento de uma teologia do laicato? E, enfim, é pedir muito que, no quadro de um pensamento tão diferencialista, nossa apreensão da situação seja levada em consideração?

Notas:
1 - Artigo do padre Joseph Moingt, na revista Études, janeiro de 2011, p. 67-76

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