Está aí mais uma praga que se espalhou de tal modo que a impressão que se tem é a de que acabou por tornar-se dado cultural no país: 'a política do arrastão', também conhecida como política eleitoreira ou, simplesmente, política pra inglês ver.
O 'representante' do povo é, em geral, um ilustre desconhecido que permanece, no decorrer do seu mandato no mais absoluto anonimato e totalmente indiferente aos compromissos assumidos em campanha. É empossado no cargo para administrar em nome de quem o elegeu, mas não governa. Na maioria dos casos, acontece justo o contrário: administra em causa própria, sem nenhum respeito aos eleitores, promovendo um verdadeiro desgoverno: cidades abandonadas, ruas emburacadas, estradas depredadas, descaso com a saúde e educação, nenhum projeto sério e alternativo para enfrentar e conter a violência comum, que é tão somente consequência da violência institucionalizada, e por aí vai...
Neste contexto de indiferença generalizada, chega o ano eleitoral, que é o tempo oportuno para o arrastão, onde a meta principal é angariar votos custe o que custar e a quem custar. Agora sim, os 'políticos' que estavam mortos ressurgem do nada e lembram, a seu modo, que o povo existe. É, então, hora de remendar os buracos na política literalmente conhecida como do tapa-buracos. Remendar é usado aqui propositalmente, pois nem sequer se dão ao trabalho de providenciar para que as obras tenham um mínimo de acabamento e durabilidade. Afinal, quando vierem as próximas eleições, precisarão delas, novamente arruinadas, para continuarem dando a impressão de que estão sempre trabalhando.
Com as obras que pipocam pelas cidades e transtornam a vida dos cidadãos porque devem ser consumadas às pressas pra mostrar serviço, vem o arrastão daquelas forças sempre esquecidas. Mas, como é ano eleitoral, é tempo em que 'políticos' passam a acreditar no potencial popular. No jogo do vale tudo pelo voto, convocam-se atropeladamente todo tipo de reuniões com associações, movimentos, igrejas, sindicatos, sapateiros, lavadeiras, catadores de papel, biscateiros, flanelinhas etc., propondo alianças e parcerias que, passadas as eleições, nunca serão efetivadas. Alguns 'políticos' mais cínicos chegam a sugerir reflexões profundas sobre o sentido da política. Há até os que falam em política com 'P' maiúsculo e apresentam programas de governo que, do ponto de vista teórico, podem impressionar e convencer os desavisados. Na prática, porém, é ovo choco. Só tem casca.
Existem também os 'políticos' mais vulgares que, apesar dos esforços empreendidos pelo Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (cf. Lei 9840), pensam que nem vale a pena perder tanto tempo e partem mesmo é pra a ignorância: oferecem logo, como aconteceu e continua acontecendo, por exemplo, na minha cidade, caixões, dentaduras, óculos, sacos de cimento e, na hora do voto, um dinheirinho a mais no bolso do eleitor que, com certeza, faz a diferença para continuar mantendo no poder a safra já tradicional de politiqueiros desonestos, corruptos e sem nenhum compromisso com o desenvolvimento de um projeto cidadão, que vise a construção do bem comum.
Esta política de coação e reduzida ao tempo das eleições, além de destituída de toda credibilidade, é crime eleitoral, uma vez que contradiz fundamentalmente os princípios da ética e da democracia por não reconhecer ao povo seus legítimos direitos à organização para exercer a cidadania plena, antes e no momento de escolher livremente seus representantes.
Política sadia nunca foi, não é, e nunca será apenas a do ano eleitoral, mas a que se faz no cotidiano da vida. Política é ação permanente e dinâmica de quem encontra, acolhe, escuta, propõe, confronta, dialoga, debate, troca, se envolve, participa e busca, coletivamente, novos caminhos que façam de todas e todos protagonistas da nova sociedade justa e solidária que queremos e precisamos construir.
Da política do arrastão, tô fora!
Pe. Carlos C. Santos - Presbítero e assessor das CEBs
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