domingo, 1 de agosto de 2010

AS LÁGRIMAS DO PODER

"Ontem, em Santa Cruz do Sul, por ocasião da inauguração de uma usina de metanol do Movimento dos Pequenos Agricultores (Usina São Francisco de Assis) ao abraçar nosso presidente, lembrei-lhe a cena na Record e lhe assoprei nos ouvidos a minha nona bem-aventurança::“Bem-aventurada a nação que tem um presidente operário que chora sobre os mais deserdados de seus trabalhadores!”, escreve Antônio Cechin.

Denuncia também que passados "quase três anos desde a promulgação da “lei das carroças”, em Porto Alegre, nenhuma proposta de substitutivo de trabalho para quem tem seu ganha-pão e o de sua família através da tarefa absolutamente ecológica de devolver matéria-prima às fábricas, acabando com o enterro de materiais que seriam altamente poluidores do meio-ambiente".

Eis o artigo.

A sabedoria popular se expressa através de ditos e frases feitas que, se por um lado traduzem os costumes e os valores tradicionais de uma determinada cultura, por vezes nos desconcertam. Por exemplo: é costume dizer-se que rico ri à toa e somente os pobres são dados ao choro, que é o jeito com que a natureza nos dotou para exprimir sofrimento. Também se costuma dizer que homem não chora. Quem chora é mulher e criança. Quantas vezes em lugares públicos assistimos a mães que, para estancar os soluços ou choros de uma criança do sexo masculino, repetem às pampas que “homem não chora”.

Pois não é que ultimamente somos surpreendidos pelo presidente Lula se emocionando a tal ponto de não conseguir esconder as lágrimas. A última vez que pudemos presenciar o fato foi na semana passada quando deu uma entrevista ao Jornal da Record. Com 163 dias de mandato pela frente, Lula falou de tudo um pouco: sobre eleições, planos para a reta final da gestão, deu até palpite sobre o possível treinador da Seleção de Futebol para a copa de 2014.

Na segunda parte da sabatina chegou às lágrimas ao recordar um feito que considera especial em sua passagem pelo Palácio do Planalto. “Orgulho eu tive ao ver o BNDES assinar um empréstimo milionário aos catadores de papel. Eu pensei: agora esse país...” disse Lula, deixando a frase incompleta por conta da emoção. Puxou o lenço do bolso para enxugar as lágrimas e ele próprio na seqüência comentou o episódio. “Acho que estou ficando velho” brincou.

Não é todos os dias que vemos um homem com o poder que tem o presidente da República, aos prantos. Choro sempre foi ligado a fraqueza. Criança chora porque não tem poder. Mulher chora, costumam dizer, porque é sexo fraco.

Apesar de todos os ditos em voga, são célebres, ao longo da história, as ocasiões em que o poder desandou em choro desatado. Nunca esqueço o fato histórico acontecido na Espanha.

Quando os Reis Católicos, Isabel e Fernando, conquistaram o Reino de Granada, expulsaram o Rei arabe Boabdil. Ele ficou muito triste por ter perdido o que chamava de "Paraíso Terrestre". Diz a história que o monarca desandou num choro convulsivo diante de sua mãe enquanto se afastava da sua cidade de Granada, com a maravilha da Alhambra e tudo mais que os mouros haviam construído durante anos a fio. A mãe antes de com ele abandonar o castelo que a partir desse dia passaria a ser residência dos reis da Espanha, dirigiu-se ao filho com a seguinte invectiva: choras agora como uma mulher, o que não soubeste defender como um homem. No caminho até à costa granadina existe um ponto de montanha chamado "El Suspiro del Moro" (O Suspiro do Mouro), nome que se deve às lágrimas, já que deste ponto se pode observar toda a cidade e a Alhambra, e onde se supõe que Boabdil parou para admirar o seu reino perdido, não podendo evitar de chorar copiosamente. Essa expulsão, segundo o relato dos historiadores, teria acontecido no dia 2 de janeiro de 1492, ano da descoberta da América por Cristóvão Colombo. Além da reconquista de Granada, os hispânicos nesse mesmo ano conquistaram também a América.

Lula, o homem com mais poder no Brasil, chorando ao se lembrar dos últimos, dos mais excluídos, dos mais fracos deste país que são os catadores. Como ando às voltas com catadores o dia inteiro, também me comovi ao ver nosso presidente chorar sobre os papeleiros. No instante mesmo me nasceu no coração uma nona bem-aventurança a ser acrescentada às oito que são a base da plataforma da pregação de Jesus, do qual não temos nenhuma cena de riso mas várias de choro e choro profundo. Estamos nos referindo aqui ao chamado Sermão da Montanha. Lula chora de alegria por ter podido, do alto do seu poder, ir ao encontro dos mais excluídos da nação, através de políticas públicas que os beneficia enormemente. Ontem, em Santa Cruz do Sul, por ocasião da inauguração de uma usina de metanol do Movimento dos Pequenos Agricultores (Usina São Francisco de Assis) ao abraçar nosso presidente, lembrei-lhe a cena na Record e lhe assoprei nos ouvidos a minha nona bem-aventurança::“Bem-aventurada a nação que tem um presidente operário que chora sobre os mais deserdados de seus trabalhadores!”

Se por um lado temos um presidente com o dom das lágrimas e que chora a infelicidade daqueles para os quais sobraram apenas os rejeitos da sociedade, temos em Porto Alegre uma Prefeitura e uma Câmara de Vereadores que tratam muito mal seus carroceiros e carrinheiros. Quando da tramitação da lei que acaba com carroças e carrinhos, houve primeiro uma batalha campal na Câmara entre carroceiros e madames da sociedade portoalegrense. Estas, sob o argumento de maus tratos aos animais, não pouparam as palavras em suas catilinárias contra nossos “Profetas da Ecologia”. Não foram capazes de olhar para dentro de suas próprias casas onde são prisioneiros seus animaizinhos de estimação tão ou mais indefesos de possíveis maus tratos.

Já se passaram quase três anos desde a promulgação da “lei das carroças”. Nenhuma proposta de substitutivo de trabalho para quem tem seu ganha-pão e o de sua família através da tarefa absolutamente ecológica de devolver matéria-prima às fábricas, acabando com o enterro de materiais que seriam altamente poluidores do meio-ambiente. Por essa lei carroças e carrinhos serão varridos definitivamente da capital decorridos 8 anos desde a promulgação. Já agora, em vista da Copa do Mundo, o espaço de tempo que o poder tem pela frente para dar uma solução condigna a quem ganha seu pão e o da família a partir do lixo, o prazo foi reduzido pela metade.

Se Jesus de Nazaré retornasse como morador de nossa cidade bem que poderia voltar-se para nossos poderes locais com a mesma palavra com que se dirigiu às mulheres que o acompanhavam chorando, a caminho do Calvário: “Não choreis sobre mim. Chorai sim sobre vós mesmas e sobre vossos filhos!”

Antonio Cechin é irmão marista, miltante dos movimentos sociais, autor do livro Empoderamento Popular. Uma pedagogia de libertação. Porto Alegre: Estef, 2010.

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