O tema central da Assembleia Geral da CNNB "As Comunidades Eclesiais de Base", que inicia nesta semana, é o tema do artigo de Antonio Cechin.
Eis o artigo.
Artigos e mais artigos estão aparecendo diariamente nos noticiários dos meios de comunicação focalizando a crise na Igreja Católica, em tudo só comparável com a crise provocada pela Reforma Protestante, desencadeada pelo teólogo alemão Martinho Lutero, que havia pertencido à ordem religiosa católica dos padres agostinianos. Em compensação às duas grandes crises – a protestante do século XVI e a atual - vivemos, no século passado, na década de 1960, uma Boa Nova para não dizer Magnífica Notícia, que foi a realização do Concílio Vaticano II. Analistas se referiram a esse conclave que reuniu os bispos do mundo inteiro, como a um tempo de primavera para a Igreja.
Lembramos com saudade a novidade que representou o concílio convocado pelo saudoso Papa João XXIII. A rigor, essa espetacular Boa Notícia teve um antes e um depois. Na fase pré-conciliar só se falava em reNOVAção. Primeiro foi a renovação bíblica ou da nova exegese em que passamos a ler de maneira nova a Sagrada Escritura. Aprendemos a distinguir gêneros literários os mais diversos já no Antigo Testamento. Seguiu-se depois a renovação catequética, a renovação litúrgica, a renovação teológica também chamada de a nova teologia. Tudo isso culminou com a lufada de bons ares no interior da Igreja na própria expressão de João XXIII, usada para significar o objetivo do Concílio. Reforçou ainda mais a expressão indo até a janela de seu escritório, abrindo-a com energia diante dos olhares atônitos dos repórteres.
Pena que o pós-concílio tenha durado tão pouco tempo e que, hoje, estejamos vivendo “tempos de inverno” na Igreja. No entanto diz o poeta que “tudo vale a pena quando a alma não é pequena!”, e o nosso Henfil, irmão do Betinho dizia também:
“"Se não houver frutos, valeu o perfume das flores; se não houver flores, valeu a sombra das folhas e se não houver folhas, valeu a intenção da semente!”!”
Se os tempos pré e pós Vaticano II, derivados do grande evento, foram épocas de grande renovação espiritual, “fazendo novas todas as coisas” no dizer do Apocalipse, ninguém no mundo viveu como continua vivendo o novo da maneira quanto nós, cristãos da América Latina. Nosso bispo maior Dom Hélder Câmara, de saudosíssima memória, muito mais do que simplesmente com a cara e a coragem, partiu para Roma com a meta definida para si próprio de conchavar ao pé do ouvido de todos os principais teólogos do mundo e cardeais mais influentes, presentes ao conclave. Nosso “bispo da opção pelos pobres” queria que o Concílio realizasse a reconciliação da Igreja do século XX com a Igreja do século I – a das Catacumbas Romanas. Para tanto, a ele se aliaram logo o cardeal Lercaro de Bolonha e Mons. Ancel de Lyon, ambos também bispos dos pobres.
Dom Hélder não conseguiu desequilibrar o Concílio fazendo-o pender mais para o lado dos marginalizados. No entanto marcou presença e presença forte. Chegou até ao protagonismo de, ao lado do encerramento solene e oficial do Vaticano II na praça São Pedro, celebrar outro encerramento oficioso, nos subterrâneos de Roma junto ao túmulo dos mártires, na companhia de várias dezenas de bispos, fato que passou para a história com o nome de “pacto das catacumbas”. Retornados às terras BRASILIS, um bom grupo de bispos nossos, agora ampliados para um grupo maior, latino-americano, pelos meses de convívio que tiveram durante a realização do Concílio, decidiu realizar Medellín no ano de 1968. E aqui nesta última cidade colombiana, no dizer de um teólogo, “Sara, a estéril – o modelo velho - pariu a Nova Igreja, a das Comunidades Eclesiais de Base.
Nesta Semana entrante reunir-se-á a grande Assembléia anual da CNBB. Nada mais coerente do que em tempos de Crise como a que vive a grande instituição, adotar como tema central “As Comunidades Eclesiais de Base”. Em crise o modelo velho de Igreja? Então VIVA O NOVO MODELO: AS CEBS!”. Aliás, esta foi a melhor definição que lhe deu nosso saudoso cardeal Aloísio Lorscheider: “As Comunidades Eclesiais de Base SÃO O JEITO NOVO DE SER IGREJA”.
No nosso entender chegou o momento de “sacudir o pó das sandálias” – expressão do Divino Fundador da Igreja – para o modelo “velho” de Igreja e estender para o mundo inteiro o modelo NOVO que os pobres da América Latina criaram para a Igreja Universal, como contribuição de gente que pouco tem para dar, mas que dá com alegria. Os tempos estão mais do que maduros para esse salto qualitativo para todo o catolicismo universal. Tudo se tornará NOVO então: fé, espiritualidade, catequese, liturgia, teologia. As próprias instituições eclesiásticas ver-se-ão obrigadas a se revestir de “roupas novas em vez de apenas pequenos remendos com pano novo” para ser fiel a outra comparação do Nazareno.
Todos sabemos que Dom Hélder, antes de morrer, sonhou o ano 2000 como o ano fatídico em que a Igreja realizasse o Concílio Vaticano III a fim de completar os trabalhos incompletos do Vaticano II. Em vida, falando com o Papa Paulo VI, de quem era grande amigo, “o padre Hélder” como gostava de ser chamado, deu-lhe a sugestão para que entregasse à Unesco as “riquezas” do Vaticano como, por exemplo, seus museus tipo quadros famosos e capela Sixtina, porque, teria dito Dom Hélder, tudo o que a Igreja acumulou durante dois mil anos é patrimônio construído não só por ela mas também pela humanidade toda. Entregue o Vaticano inteiro à grande organização dos povos da terra, seria uma maravilha se o Papa fosse morar, por exemplo, no Trastevere, um bairro pobre logo ao lado do Vaticano. Que capital imenso recuperaria nossa instituição em termos de Fé e Profetismo!
Antonio Cechin é irmão marista, miltante dos movimentos sociais e autor do livro Empoderamento Popular. Uma pedagogia de libertação. Porto Alegre: Estef, 2010.
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