quinta-feira, 1 de abril de 2010

CELIBATO OPCIONAL, A OPÇÃO DE PAULO VI

"O celibato obrigatório com caráter universal é muito moderno. Poderíamos dizer que ainda não nasceu. Está em fase de aborto."
Essa é a opinião de Celso Alcaina, advogado espanhol e doutor em teologia, ciências bíblica e em filosofia semítica. Entre 1967 e 1975, foi oficial da Congregação para a Doutrina da Fé do Vaticano, no papado de Paulo VI. O artigo foi publicado no sítio Religión Digital, 29-03-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Celibato opcional, a opção de Paulo VI

1. Opção ambígua. Sim, mas não
Paulo VI tentou. Esforçou-se. Consultou. Fez com que a Cúria trabalhasse. Anunciou-o. Depois, cedeu. Desinflou-se e desistiu. Não teve força para chegar ao final. Nem sequer para iniciar um caminho que avaliou como adequado. Era seu procedimento habitual. Sua mente era lúcida. Seus propósitos, louváveis. Mas sua vontade era fraca. Na hora de executar, duvidava. Uma dúvida de sábio. Tímido, mais do que prudente. Excedia-se nas consultas. E desconfiava de sua própria sabedoria. Mais um vez o lembramos. João XXIII o teria qualificado de "hamlético".

A questão do celibato sacerdotal havia sido excluída pelo próprio Paulo VI da agenda do Concílio Vaticano II. Reservou-a. O celibato está intimamente ligado ao sexo. Nossa sociedade ocidental se abstém de falar abertamente de sexo. Durante séculos, considerou-o como tabu, quando não como pecado. Como qualquer outro clérigo, Montini havia sido educado em um ambiente de repressão sexual. Além disso, temia que se difundissem condutas inapropriadas ou escandalosas de clérigos de então ou de antes. Considerou prudente furtar o tema do debate conciliar e restringi-lo ao estudo discreto e secreto.

E fez isso logo que o Concílio finalizou. Porque Paulo VI, diferentemente de João Paulo II, não tinha escrúpulos com relação à hipótese de abolir o celibato obrigatório. E mais, desejava essa abolição. Como outros pensadores católicos de vanguarda, considerava a instituição do celibato obrigatório um obstáculo para a evangelização e para a autenticidade do clero. E também um contrassinal e um freio aos direitos humanos.

2. Opção desejada. Faças tu por mim
Entre 1969 e 1971, o Vaticano preparava o III Sínodo dos Bispos. Por sugestão do próprio Papa, ele deveria tratar do "sacerdócio ministerial". Paulo VI deu instruções à Congregação para a Doutrina da Fé (Santo Ofício). Pedir a opinião de cardeais e bispos destacados sobre a oportunidade e a conveniência de uma mudança na disciplina do celibato. As respostas, não coincidentes, fundamentalmente defendiam a manutenção da atual disciplina. Os mais intrépidos defensores do celibato obrigatório eram os cardeais que administravam as mais importantes sedes da Itália: Siri em Gênova, Pappalardo em Palermo, Ursi em Nápoles, Poma na Bolonha. E também os cardeais e bispos do mundo anglo-saxão.

Setembro de 1971, poucos dias antes do início do Sínodo. De sua janela do Palácio Apostólico, na alocução dominical, o Papa se referiu à questão do celibato. "O Sínodo que está a ponto de começar irá debater sobre o celibato do clero. De minha parte, estou disposto a que homens cristãos casados possam ter acesso ao sacerdócio, desde que o Sínodo assim o defina".

Nos anos pós-conciliares, a expectativa da abolição do celibato obrigatório estivera em um crescendo. Muitos clérigos esperavam e esperaram. Muitos outros, menos pacientes, se lançaram a solicitar a redução ao estado laical com dispensa do celibato. Era uma possibilidade novíssima, de marca Roncalli. Nos dez anos posteriores ao Concílio, 100 mil sacerdotes fugiram.

O Sínodo dos Bispos (de 30 de setembro a 06 de novembro) debateu, como ponto principal, a disciplina celibatária. Fez isso com base em um esquema opúsculo – umas 100 páginas – redigido por dois teólogos: o espanhol Olegario González de Cardedal e o dominicano francês Marie J. Le Guillou.

O primeiro havia sido chamado para a Comissão Teológica Internacional por sugestão minha. Eu também havia intervindo no cargo de preparar o tal esquema. González de Cardedal me visitou no Palácio do Santo Oficio às vésperas do Sínodo. Comentamos o conteúdo do opúsculo, já impresso, que ia ser distribuído aos padres sinodais.

Quando ele ouviu de mim que a opinião bastante generalizada dos curiais era a de abolir o celibato obrigatório, Olegario ficou perplexo. Não tinha conseguido suspeitar disso. Ele mesmo se inclinava pelo celibato opcional. Pelo contrário, o esquema ia na direção de confirmar a atual disciplina celibatária. O fato novo (e escandaloso) para mim foi que Olegario e Le Guillou haviam recebido instruções da Secretaria de Estado nesse sentido. E mais incompreensível era que Olegario, em suas considerações e conclusões, houvesse se submetido às diretrizes de um órgão executivo de Roma em um documento desses.

O Sínodo não aboliu a obrigatoriedade do celibato para o clero latino. E com uma lógica compreensível se opôs aos propósitos do Papa. Os bispos concluíram que a ordenação "in sacris" de homens casados supunha o princípio do fim do celibato obrigatório. Jogaram novamente sobre as costas do Papa a mudança histórica. E Montini era fraco.

Eram sete os argumentos a favor do celibato elencados e expostos no esquema Cardedal-Le Guillou. Só a dois foi concedida importância: o econômico e o escatológico (anticipação da futura vida angelical: Marcos 12,25). Impôs-se a realidade prosaica. Entre os bispos europeus, pesava a tradição secular, mas eles não se opunham taxativamente a uma mudança. Aos anglo-saxãos, só lhes moveu o fator econômico. Não estavam dispostos a acudir às necessidades de famílias em vez de indivíduos.

3. Opção urgente. Cambodja e Vietnã
Paulo VI tinha uma sensibilidade missionária muito aguda. As terríveis consequências da ainda vigente guerra do Vietnã e dos desastres no vizinho Cambodja estavam muito presentes. No Vaticano, chegavam lamentos arrepiantes. Sacerdotes e religiosos exterminados. Freiras estupradas ou assassinadas. Bispos expulsos. Igrejas destruídas. Fiéis errantes, dispersos. Impossibilidade de importar do Ocidente as espécies eucarísticas e sacramentais (pão, vinho, óleo), tal como vinha sendo feito. Só se vislumbrava um raio de esperança. Alguns catequistas estavam dispostos a assumir o testemunho da evangelização. Mas o arcebispo de Saigon [atual Ho Chi Mihn], Nguyen van Binh, era muito claro. Esses catequistas, solteiros ou já casados, não estavam dispostos a aceitar o celibato.

O Papa transferiu a documentação suficiente para o Santo Ofício para o seu estudo. Esperava, dizia, uma adequada solução ao problema do clero no Vietnã e em Cambodja. Parece evidente que ele desejava um relaxamento ou exceção na disciplina celibatária para aquela região asiática atormentada. Eu preparei a "positio". O tema foi estudado em "Consulta" e debatido na Plenária de Cardeais. A conclusão deve ter sido muito decepcionante ao Papa. Não se podia fazer uma exceção porque isso suporia romper a disciplina geral no assunto. Se o Papa queria abolir o celibato obrigatório, era sua responsabilidade.

4. Opção improcedente. Senador Montini
O Papa era natural de uma pequena cidade da diocese da Bréscia. Nos anos 70, seu irmão Ludovico era senador em Roma. Em 1973, Dom Benelli, "substituto" da Secretaria Papal, fez com que chegasse ao Santo Ofício uma carta de "encomenda especial do Santo Padre", anexando outra longa carta do senador Montini dirigida ao seu irmão Giovanni Battista.

Nessa carta, Ludovico expunha a situação do Pe. Renato, um jovem sacerdote da Bréscia, amigo do próprio senador. Ele exaltava seus dotes espirituais, apostólicos e culturais. Pe. Renato havia se apaixonado pela líder das jovens de sua paróquia e planejava se casar. A jovem também era uma excelente católica. Pe. Renato queria apurar todos os recursos para não abandonar seu sacerdócio. Sua vocação era autêntica. Aceitaria restrições em suas funções e mudanças de domicílio. Sua futura esposa poderia ser um complemento, não um obstáculo ao seu ministério. O senador pedia um esforço a seu irmão para ajudar seu amigo.

Fomos vários os curiais que leram a carta do senador. O prefeito, cardeal Seper, enviou-a ao arquivo vivo da Seção Matrimonial. Devia ser unida ao iminente expediente de redução ao estado laical. Seguramente, a petição do Pe. Renato estava a ponto de chegar ao Palácio. O Congresso Particular das segundas-feiras (quatro altos cargos) já havia negociado a improcedência da pretensa exceção. Foi nesse sentido que o cardeal respondeu a Benelli.

5. Opção interrupta
Do que foi exposto, parece razoável concluir que Paulo VI pretendeu seriamente a abolição do celibato obrigatório. Do contrário, não se compreende a insistência em propor seu estudo e debate, "opportune et importune".

Surpreende que, poucos anos antes, em 1967, o Papa publicara a encíclica "Sacerdotalis caelibatus", na qual corroborava a disciplina celibatária vigente e a valorizava profusamente. A esse propósito é preciso advertir que, salvo exceções, as encíclicas são obra da Cúria mais do que do Papa. Este a assina, mas não se deve a ele sua gestação e redação.

Por outro lado, é verossímil que, em poucos anos, o Papa evolucionaria e mudaria de atitude. Seu conhecido caráter indeciso leva à credibilidade dessa hipótese. Os acontecimentos daqueles anos eram vivos e trepidantes.
À vista dos fatos anteriormente relatados, é evidente que Paulo VI não considerava o celibato obrigatório essencial. Nem sequer muito importante. Ele o subordinava à função apostólica do clero. Considerava prioritários outros valores eclesiais e individuais. Ele tinha a esperança de que seus colaboradores aprovariam e corroborariam sua pretensão de modificar paulatinamente a disciplina celibatária.

Por seu caráter tímido, pela atual configuração do papado, pela formação e idade do episcopado, pelo preponderante papel da Cúria, ele foi incapaz de dar o salto, de passar do projeto à execução.

6. Epílogo. Um aborto ou um parto
O celibato opcional foi uma realidade no cristianismo desde as suas origens. Data da época pré-cristã. Casualmente, uma de minhas teses de doutorado versa sobre os cenóbios no século IX antes de Cristo: "Eliseu e seus discípulos". O fundamento do celibato não é estritamente de caráter religioso. A filosofia grega – Plotino, neoplatonismo, maniqueismo – levavam ao desprezo da matéria e, por consequência, do corpo e da reprodução.

Nesse ambiente de desprezo da matéria e da exaltação do Uno, surge paulatinamente a obrigatoriedade do celibato. Nem sempre foram razões espúrias, de índole material ou patrimonial. Durante mais de um milênio, os bispos eram autônomos. Não estavam submetidos a Roma. Não eram nomeados por Roma nem dependiam de Roma. Cada bispo ou cada concílio regional ditava o que estimava mais conveniente para seus clérigos e fiéis.

A Espanha foi uma vanguardista em impor o celibato aos clérigos. Por trás dessa imposição podia estar a convicção – acaso errôneo, mas coerente – de que esse era o melhor caminho para a santidade. Sem dúvida alguma, fez-se a manipulação. Com o pretexto da espiritualidade e da perfeição, afloraram interesses materiais, econômicos, políticos, de domínio.

Quando Gregório VII, no século XI, proclamou a obrigatoriedade do celibato para todos os clérigos, o papado não estava consolidado. Os decretos do bispo de Roma não foram considerados obrigatórios em outras dioceses. Isso explica porque durante os séculos posteriores o celibato não foi uma prática habitual. Nem os bispos nem os clérigos se sentiam afetados pela norma gregoriana.

Foi no Concílio de Trento, século XVI, que se ratificou o celibato obrigatório. Naquele momento, Roma tinha mais poder. O incremento e a preponderância dos Estados Pontifícios, o domínio sobre imperadores e reis, a influência nas colônias de além-mar. Tudo isso, somado à velha herança do Império Romano, vinha respaldar a autoridade do bispo de Roma, até então pouco mais do que um "primus inter pares".

Nem sequer o Concílio Tridentino foi um ponto de chegada para a universalização do celibato obrigatório do clero. Sabemos que alguns decretos do Tridentino demoraram séculos para serem aplicados. Eram os reis que davam o visto bom a esses decretos para a execução em seus respectivos territórios.

O celibato obrigatório com caráter universal é muito moderno. Poderíamos dizer que ainda não nasceu. Está em fase de aborto. A tolerância de muitos bispos (conheci vários) com relação ao descumprimento do celibato do clero. A compreensão do povo com relação ao próprio descumprimento. Os esforços fracassados de Paulo VI para neutralizar normas de seus antecessores. As "dolorosas" previsões de João Paulo II sobre sua abolição: "Sinto que isso irá acontecer, mas que eu não o veja". A aceitação do clero anglicano casado por parte de Bento XVI. Vozes de numerosos altos dignatários eclesiásticos clamando pela opcionalidade do celibato, dentre elas a voz autorizadíssima do cardeal Martini.

Tudo, sintomas de que a normativa do celibato obrigatório está perto de se converter em algo histórico. Sua abolição será lamentável para uns, positiva para muitos. Poderia ser – coisa que duvido – um impulso quantitativo para o clero. A atual estrutura hierárquica irá permanecer. Previsivelmente, Roma irá copiar a situação secular da Igreja Ortodoxa onde se exige o celibato para ter acesso ao episcopado. O distanciamento entre bispos célibes e presbíteros casados é mais do que um temor.

Paradoxalmente, retrocederemos ao status do primeiro milênio do cristianismo, enquanto avançaremos na recuperação da liberdade sadia. Um pequeno avanço, um passinho no caminho dos direitos humanos. Teremos abandonado a pureza do Uno para abraçar a variedade do Todo.

Por Celso Alcaina

IMPRIMA ESTE TEXTO

Nenhum comentário: