segunda-feira, 29 de março de 2010

CRISE NA IGREJA? VIVA O REINO DE DEUS!

De uns tempos para cá, os católicos estamos em baixa. Escândalos estão vindo à tona, de todas as partes do mundo. Um tornado parece estar varrendo a Igreja. Primeiro foi nos Estados Unidos, depois o vendaval passou para a Irlanda, estendeu-se para a maioria dos países da Europa e dias atrás, chegou ao Brasil. Durante muitos anos, no passado, a Igreja era acusada de intolerante. Hoje, a acusação é de que foi excessivamente tolerante. Agora os jornais nos informam que os “paparazzi” (com direito absoluto à etimologia do vocábulo), estão querendo saber se o cardeal Ratzinger “sobrevive” ao Papa Bento XVI ou vice-versa, se Bento XVI sobreviverá ao Ratzinger.

Querem saber se o Papa, quando arcebispo de Munique, também foi excessivamente tolerante em relação a casos de pedofilia de membros do clero daquela circunscrição eclesiástica, já que de uns tempos para cá, como Pontífice, parece que está dando uma demonstração de “tolerância zero”, expressão jamais antes usada na Igreja. O papa Bento chegou, nesses últimos dias, a falar em “sujeira” da Igreja. O fato é que a crise mais do que entre o povo de Deus, dessa vez está mais entre a hierarquia, palavra de origem grega cuja etimologia quer dizer poder sagrado.

Os escândalos de pedofilia entre o clero da Igreja é recorrente. É notícia diária há já bastante tempo. Tipo de escândalos aliás verberados em primeiríssima mão, com veemência extrema, pelo próprio Mestre Jesus de Nazaré, como vem narrado nos Evangelhos: “Jesus chamou uma criança, colocou-a no meio deles, e disse: “Eu lhes garanto: se vocês não se converterem e não se tornarem como crianças, vocês nunca entrarão no Reino do Céu.... Quem escandalizar um desses pequeninos que acreditam em mim, melhor seria para ele pendurar uma pedra de moinho no pescoço, e ser jogado no fundo do mar. Ai do mundo por causa dos escândalos, mas ai do homem que causa escândalo!”(Mateus 18, 1-9). Além da pedofilia, pelas notícias que nos chegam, a crise na Igreja é bem mais complexa e generalizada. Ouvimos aqui e ali ditos assim: a vida religiosa, na Igreja, está na UTI.

Estamos em tempos de quaresma. Vem aí a Semana Santa. Para a Igreja são tempos de conversão. Tempos da Campanha da Fraternidade. O tempo litúrgico mais propício para “lavagem da roupa suja”. Tempos de Via-Sacra, acompanhando o Mestre que carrega a cruz às costas Calvário acima. A Igreja também está galgando o seu calvário e dessa vez com uma cruz pesadíssima.

Sabemos que fora de Jesus Cristo, o cristianismo não está com nada. Não seria então o caso de, em tempos de crise, sem desviar de todo nossos olhares de sobre a Igreja, que se nos apresenta hoje tão desfigurada, cheia de rugas, ou com ar poluído como dizia João XXIII, acompanhando as expressões com o gesto de abrir a janela do apartamento e dizendo em bom italiano “aria fresca nella Chiesa” quando em preparação do Concílio Vaticano II; não seria o caso, tornamos a repetir, de concentrar toda a nossa atenção na pessoa de Jesus de Nazaré? Sabemos que sua pregação incansável foi o Reino de Deus que ultrapassa enormemente a Igreja.

Jamais Ele pregou a Igreja. Olhando para Jesus, ir em seu seguimento com mais fidelidade, descobrindo detalhes novos no Homem Jesus de Nazaré. Segundo o Mestre, a Igreja deve ser tomada apenas como uma ferramenta de que nos valemos para anunciar o Reino de Deus. Instrumento apenas terrestre porque no Reino dos céus não haverá Igreja. O que importa mesmo aos cristãos é o Reino de Deus, soma de tudo que é valor e virtude, já aqui e agora na terra, sempre à espera do Reino definitivo, nossa Pátria celeste, quando mergulharemos eternamente no AMOR infinito e eterno do próprio Deus-Trindade. Jesus alertava constantemente “quem tem olhos para ver, veja” “quem tem ouvidos para ouvir, ouça” Mais do que crer EM Jesus, nosso problema de fé se resolve somente quando cremos COMO Jesus.

Quando o Nazareno aparece, começa por anunciar a maior felicidade que se possa imaginar. Não anuncia a morte, mas a vida; não a penitência, mas o Reino. Com certeza Jesus convida à penitência e a carregar a própria cruz, mas isso é segundo. É em vista da plenitude, é pelo Reino. “O Reino está presente: convertei-vos”. Portanto, em primeiríssimo lugar: “O Reino está no meio de vós”. As Bem-aventuranças proclamam as condições de acesso ao Reino. Porém não esqueçamos aonde é colocado o acento. Aqui, o que comanda não é: “é preciso ser pobre”, mas “FELIZ aquele que é pobre....” FELIZES os construtores da paz!... e por aí adiante.

Finalmente veio alguém do qual se podia dizer: “sua mensagem é essencialmente, de uma ponta a outra, Boa Notícia. Fora com as más notícias! Fora com os escândalos, com as pedofilias do clero et caterva! Os pobres podiam exultar de alegria, igualmente os cegos, os oprimidos, todos os que andavam esmagados pelo fardo da vida. Nenhuma de suas palavras que não seja anúncio de alegria e de plenitude. Mesmo suas ameaças, mesmo suas repreensões e seus anátemas! Ele só traz vida e superabundância de vida. Sua paixão e morte não serão mais que uma caminhada para a vida, e se o Pai poda a videira, é a fim de que carreguemos “muitos frutos”

Esse Reino de Deus que Jesus anunciava, nunca jamais entra em crise. Jesus não se contenta de “dizer palavras” referentes ao Reino, ele o faz experimentar. Na sua pessoa, em seus atos, em seu próprio modo de falar. Recordemos o motivo dado quando tentavam prendê-lo pela primeira vez: “É um sedutor!” E quando os emissários se justificavam por não tê-lo aprisionado: “Jamais homem algum falou como esse homem!”. Os fariseus lhes replicam: “Também vocês se deixaram arrebatar por ele!” (Jo. 7, 11 e 44-48).

Ele seduzia as multidões e “as multidões eram impactadas por seus ensinamentos” (Mat. 7,29) Mas Jesus, sedutor? Com toda certeza. Porém não no sentido a que os fariseus queriam chegar, isto é “ele abusa do povo” ou “Ele é um demagogo barato!” Não podemos sequer imaginar que Jesus tenha violentado liberdades por pressões sobre o inconsciente coletivo. Isso seria totalmente contrário à preocupação que tinha, e da qual o Evangelho é testemunha, de apelar para uma escolha a mais pessoal possível: “Se tu queres?...” “Crês tu?...” etc.

Jesus se apresentou à liberdade e à consciência das multidões como um ser extremamente fascinante. (Os jornais de hoje teriam como manchete: “Este homem é perigoso!”) Um “interlocutor” maravilhoso, cheio de autoridade. Um realizador de milagres aos olhos de Herodes. Um condutor de homens: “Tu, vem e segue-me”... “Nós achamos o Messias!”... “Eles deixaram tudo e O seguiram”... Um vivente do qual se dirá: “Ele tudo tem feito bem!” “Um ser sedutor: “Feliz a mãe que deu à luz um tal filho!”... “O encontro com Ele causou uma reviravolta na vida de Madalena e da Samaritana”.

Ele tinha um ar de Messias: isso se via na pessoa dele. Em seus gestos também: os Evangelhos nos revelam sua preocupação primeira; fazer com que o povo experimentasse que “O Reino de Deus chegou. Se Ele multiplica os milagres, se “os cegos vêem, se os surdos ouvem, se os coxos andam”, não é tanto para fornecer aos sábios argumentos apologéticos, mas acima de tudo para tornar palpável a chegada dos tempos messiânicos anunciados pelos profetas. A experiência que os 12 tiveram com Ele, foi uma experiência de céu na terra. E foi a saudade dos tempos de sua convivência que fez com que eles, depois de dispersos pela tragédia da cruz, voltassem a se reunir novamente e partir para a Missão a fim de dar continuidade aos trabalhos que Ele havia começado.

Se os tempos atuais estão bicudos – fala-se até em tempos de inverno, na Igreja universal – nós, os latino-americanos, os que optamos pelo “jeito novo de ser Igreja”, portanto um novo modelo, estamos vivendo tempos primaveris, a partir do Concílio Vaticano II com sua primorosa atualização na Assembléia de Medellín, acontecida nos idos de 1968. Neste continente, com nossa opção pelos pobres, com nossas Comunidades Eclesiais de Base, com nossas Comunidades Ecológicas de Base nos Galpões de Reciclagem, com nosso método Paulo Freire, com nossos Movimentos Populares tipo MST, com nossa Catequese Libertadora e com nossa Teologia da Libertação, com nossos Mártires da Caminhada, temos a chance de viver intensamente o profetismo que supõe uma instituição igreja em grau mínimo, sim, porque é de todo impossível nos desinstitucionalizar-nos completamente.

Os tempos de crise da grande Igreja institucional são momentos preciosos em que Jesus, o próprio Reino de Deus, se agiganta diante de nós em sua inserção no meio dos pobres. São tempos em que vamos aprofundar detalhes da vida do Homem de Nazaré, Caminho, Verdade e Vida. Por exemplo, para Jesus, a Comunidade começa com dois “onde dois ou mais estiverem reunidos em meu nome, lá estou eu no meio deles!” Então, para religiosos latino-americanos que somos, as portas da desinstitucionalização se abrem diante de nós. É a inserção em meio aos pobres, nas periferias. Sempre dois a dois como Ele fazia com seus discípulos, pelas casas e pelas vilas.

Com o mínimo possível de institucionalização que é a Comunidade mínima e aos poucos fazendo comunidade ampliada com os pobres, podemos exercer o máximo de Profetismo. Neste modelo latino-americano podemos ser extremamente criativos. Basta se inserir numa periferia, em meio aos pobres e automaticamente começamos a ser profetas porque estes, segundo a Bíblia, atuam em duas dimensões: denúncia e anúncio. Nós, vivendo em vilas populares, quase automaticamente, começamos a denunciar as mazelas, as carências, os sofrimentos do povo. E não podemos jamais deixar de denunciar. Se não fazemos sempre auto-crítica, podemos acabar, depois de certo tempo a nos acostumar com as exclusões e com as dores humanas.

Por outro lado, prestando atenção aos mínimos detalhes da vida do povo, entrando pelas casas, visitando de modo especial as lideranças que vão aparecendo, imediatamente descobrimos valores quase imperceptíveis mas que estão ali na vida dos pobres. A partir desses pequenos valores, tocamos com os dedos a presença do Reino de Deus que em companhia do povo, formando Comunidade com ele, o anunciamos pelos Serviços Comunitários que montamos. Até nem precisamos de muitos dias para poder explodir de alegria em contato com os sinais da Boa Nova, o Espírito de Jesus em ação, e com esse probrerio todo, os íntimos do Mestre, cantar: “O Reino de Deus chegou / Está no meio de nós / Os pobres é que pertencem / Ao Reino do seu Amor!”

Antonio Cechin é irmão marista, miltante dos movimentos sociais e autor do livro Empoderamento Popular. Uma pedagogia de libertação. Porto Alegre: Estef, 2010.

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