Liliana Cavani e Emma Fattorini, em artigo publicado em 27 de dezembro de 2009, no jornal italiano Il Sole-24 Ore, propuseram a realização de um Sínodo sobre as Mulheres. A proposta suscitou reações diversas mas nenhuma resposta dos bispos italianos e da hierarquia romana, escrevem as autoras em artigo publicado no dia 17 de janeiro de 2010, no mesmo jornal italiano. A tradução é de Alessandra Gusatto.
Eis o artigo.
A nossa proposta de um sínodo dedicado as mulheres gerou interesse que somente em partes foi seguido pela mídia. E agradecemos aqueles que intervieram. Choca o silêncio das hierarquias. Pensávamos que já era a hora da igreja respirar com os dois pulmões, aquele masculino e aquele feminino, como nos grandes quadros de antigamente que retratam Maria – mulher que acolhe a todos. Acreditamos que a igreja, não ouvindo as mulheres, se prive de talentos preciosos.
O fantasma do sacerdócio feminino não deve servir de álibi. Não queremos que os homens da igreja sejam vítimas daquele medo que está minando a entidade masculina na deformidade laica “posta de cabeça pra baixo com o avanço das mulheres”. Também as mulheres de fé há tempos se exprimem com plena autonomia, um processo já consolidado que deve continuar e acentuar-se sempre mais. Além disso, achamos que no momento seja urgente um amplo trabalho próprio e, sobretudo da parte dos homens da igreja; é necessário que sejam eles a falar sobre si mesmos, abrindo-se para o debate com as sempre mais numerosas mulheres de conhecimento. São eles, os homens, que devem falar.
Nos últimos vinte anos, pelo menos depois de Mulieris dignitatem, existiu um verdadeiro interesse pela mulher e pela sua relação com Deus. Assim, como se multiplicaram os estudos e pesquisas de grande valor teológico e espiritual sobre as mulheres da parte de estudiosas cada vez mais preparadas. Assim como na experiência concreta da igreja, nas paróquias, nos movimentos e nas missões as mulheres, freiras e laicas são cada vez mais o ponto de apoio da vida religiosa. Deste enorme patrimônio saem ensinamentos para instruir os temas centrais em uma consensão importante como um sínodo: sobre o tema das leis demográficas, a sábia voz das missionárias não teria deixado somente o pontífice ocupado com a impopular condenação do preservativo, o debate sobre bioética referente ao início e ao fim da vida não teria ganhado tons de desencontro ideológico, a defesa da família e da maternidade não se tornaria propaganda de uma classe dirigente masculina marcada pela dupla moral, uma sábia presença feminina bloquearia aquela presença toda masculina dos ambientes eclesiásticos na educação e formação religiosa e moral dos nossos jovens. São tantos os campos nos quais estamos pensando e sobre os quais pedimos reflexão.
Na origem da nossa proposta de um sínodo está a exigência dessa forte e corajosa mistura, um debate recíproco, sereno e confiante. E realmente porque pensamos que um dos males que vive a igreja hoje é aquele das divisões internas, entre almas, grupos e movimentos que muitas vezes se exprimem em meras lógicas de poder mais do que na pluralidade de graças divinas, com certeza não seremos nós a parabenizar a enésima “corporação” reivindicativa, aquela das mulheres. Acreditamos, acima de tudo, que tenha chegado a hora de mudar a ótica com a qual olhamos a relação das mulheres e a fé até agora: não mais ver somente o que as mulheres deram para a igreja e a religiosidade moderna, mas o quanto o mundo religioso masculino tenha mudado e ainda possa transformar-se em contato com elas. Mas pode ser que o momento, para nós já maduro, não seja percebido assim pela igreja. E sabemos que não se podem colher frutos fora de época. Além do mais, estamos certas de que perante um processo de emancipação da mulher cada vez mais acelerado, de êxitos extraordinários e de desvios muitas vezes dolorosos a grande riqueza espiritual do Cristianismo poderia iluminar, dar luz e calor as inteligências. O patrimônio cultural e espiritual do Cristianismo é de uma atualidade surpreendente, e devemos, portanto encontrar palavras para repassar a força da Revelação aos homens e mulheres de hoje. E um sínodo poderia ser um primeiro passo.


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