quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

ZILDA ARNS: CHAMADO QUE SALVOU VIDAS

Se os homens fecham as janelas, Deus abre uma porta - assim pensou a médica Zilda Arns Neumann, depois de conversar com o cardeal d. Paulo Evaristo Arns, um de seus 12 irmãos, que lhe telefonara para perguntar se aceitava empreender uma obra capaz de salvar milhões de crianças. Pediatra e sanitarista, viúva e mãe de cinco filhos, ela estava encostada atrás de uma mesa da burocracia da Secretaria da Saúde do Paraná, após 23 anos de trabalho - os últimos 13 como diretora de Saúde Materno-Infantil do Estado, em Curitiba.

A reportagem é de José Maria Mayrink e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 14-01-2010.

D. Paulo, então arcebispo de São Paulo, ligou para dar um recado do secretário executivo do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), James Grant, com quem acabara de se encontrar em Genebra, na Suíça. "Por que a Igreja Católica, que tem tanta influência nas camadas mais pobres da população, não faz uma campanha contra a desnutrição?", propôs Grant, dispondo-se a financiar a obra se d. Paulo quisesse começar por sua arquidiocese. O cardeal argumentou que não teria tempo para tal empreitada, mas sugeriu o nome de Zilda.

"Tenho uma irmã que é especialista na área e pode fazer isso", respondeu o cardeal, e imediatamente levou a proposta adiante. "Não tenho grande mérito, a não ser o de aceitar a ideia", disse d. Paulo 20 anos depois, como se sua participação tivesse parado aí. Não parou. Foi ele também quem indicou o nome do então arcebispo de Londrina, d. Geraldo Majella Agnelo, para ajudar na organização de um projeto para reduzir a mortalidade infantil que se transformaria no ano seguinte, setembro de 1983, na Pastoral da Criança. Foi um trabalho árduo que Zilda iniciou em casa, numa noite de vigília e oração.

Começou conversando com os filhos na cozinha, onde se reunia com eles antes de irem dormir, para tomar uma vitamina e contar as coisas do dia. "D. Paulo me telefonou e a mãe vai preparar hoje à noite um projeto que vai salvar milhões de crianças no Brasil e no mundo", disse Zilda, explicando o que pretendia fazer. Tomou um café preto para espantar o sono, pediu que Deus a ajudasse - "Vinde, Espírito Santo, enchei os corações de vossos fiéis" - e se pôs a meditar sobre aquele trecho do Evangelho que narra o milagre da multiplicação dos pães e dos peixes. "Se Jesus mandou que seus discípulos dessem de comer, eles mesmos, ao povo que estava com fome, achei que, em vez de ficar dependendo do governo, nossas famílias deviam se organizar para cuidar de seus filhos."

Escolheu-se então o município de Florestópolis - 14.700 habitantes, 73% deles trabalhadores boias-frias - para a implantação do projeto. Situado a 80 quilômetros de Londrina, arquidiocese de d. Geraldo Agnelo, que poderia acompanhar tudo de perto, era o campo ideal. "Florestópolis era o fim do mundo, tinha o maior índice de mortalidade infantil do Estado e vivia sob a influência de uma usina de açúcar de Porecatu que pagava os boias-frias com vales que eles tinham de gastar no mercado da fazenda, comprando coisas de que não precisavam", lembra d. Geraldo Agnelo, atualmente cardeal primaz de Salvador e ex-presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

Quando Zilda voltou a Florestópolis, um mês após o lançamento do projeto, os líderes envolvidos, todos voluntários, já eram 76, quase todos funcionários públicos, principalmente professoras. "Era muita gente, mas não dispensei ninguém, para não desanimar", disse a fundadora da Pastoral da Criança, que então dividiu os voluntários em cinco grupos, cada um encarregado de uma ação básica. Com a ajuda de técnicos da Secretaria da Saúde, a pediatra e sanitarista distribuiu apostilas para orientação dos primeiros coordenadores.

As coisas iam caminhando bem no segundo semestre de 1983, quando a Igreja decidiu transformar em Pastoral da Criança o projeto de redução da mortalidade infantil. O exemplo de Florestópolis suscitou iniciativas semelhantes em São Paulo - onde o então bispo auxiliar d. Luciano Mendes de Almeida repetiu a experiência na região episcopal do bairro do Belém - e, logo em seguida, no Rio Grande do Sul. A nomeação de d. Geraldo Majella Agnelo para a Comissão Episcopal de Pastoral (CEP) facilitou o processo, pois ele viajava com frequência para Brasília, onde tinha contato não só com outros bispos da CNBB, mas também com a direção do Unicef.

Antes de se mudar para a sede atual, a Pastoral da Criança funcionava na casa da dra. Zilda, que tinha ali também seu consultório particular de pediatria. Meio apertado, mas deu para conciliar enquanto os colaboradores não eram tantos e não havia tanto material como hoje. Como a médica trabalhava também no serviço público, as coisas foram ficando cada dia mais complicadas, pois não havia tempo nem espaço para tudo.

Os pobres, principalmente os pobres, recorriam sempre a ela - o que significava 18 consultas de graça em cada 20. A situação ficou ainda mais difícil quando a coordenadora da Pastoral da Criança passou a viajar com mais frequência, com ausências de semanas seguidas. "Fico pouco em Curitiba, apenas alguns dias por mês."

Nelson Arns Neumann, que também é médico pediatra e assumiu a função de coordenador nacional adjunto, substituía a mãe durante suas constantes viagens. Mergulhou de cabeça no programa, cujas atividades vem acompanhando desde a fundação - ele e os outros irmãos. Seguiram tudo de perto, apoiando e dando palpites - o voluntariado em família.

Eram adolescentes e crianças, em 1983, quando a dra. Zilda aproveitou a conversa, naquela noite em que fazia uma vitamina para eles na cozinha, para falar do telefonema de d. Paulo, o tio cardeal. Agora, Rubens é veterinário, Heloísa é psicóloga e Rogério é administrador de empresas. Sílvia, que também era administradora de empresas, morreu num acidente de carro em 2003 e deixou um filho, de 3 anos, que foi morar com a avó.

A família tem uma chácara, a 20 minutos do centro de Curitiba, que mãe e filhos compartilhavam, cada um em sua casa, como faziam os Arns em Forquilhinha, na colônia de imigrantes alemães de Santa Catarina, onde Zilda e seus irmãos - eram sete mulheres e seis homens - nasceram. Além de d. Paulo, havia mais um frade na família, frei Crisóstomo, franciscano como o cardeal. Três das mulheres se tornaram freiras.

Zilda queria ser médica e missionária, mas acabou se casando. Perdeu o marido, Aloysio, que morreu afogado, aos 46 anos, quando tentava salvar das ondas uma adolescente que o casal tinha sob sua tutela. A moça se salvou. Os Arns moravam num colônia alemã de Forquilhinha, em Santa Catarina, mas costumavam passar férias no litoral do Paraná, onde ocorreu o acidente.

Durante a Segunda Guerra, Zilda e seus irmãos acordavam de madrugada para ajudar a mãe a queimar livros e revistas escritos em alemão, porque tinham medo de seu pai ser preso. Uma noite, enterraram um gramofone e uma coleção de cem discos no meio do mato.

Circunstâncias exatas da morte ainda são incertas
As circunstâncias da morte de Zilda Arns, de 75 anos, ainda não estão claras. De acordo com Silvio Lopes Barbosa, da diretoria da pastoral, apenas após a chegada do senador Flávio José Arns (PSDB-PR), sobrinho de Zilda, ao Haiti é que será possível saber as condições em que ela morreu. Uma das versões seria que Zilda estava caminhando pelas ruas de Porto Príncipe acompanhada de militares no momento do tremor. "Outra hipótese seria que ela estaria em uma igreja. Não temos como ter certeza."

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