"O que é o sofrimento humano?", pergunta Antonio Cechin. Antonio Cechin é irmão marista, miltante dos movimentos sociais.O sofrimento, a dor, é uma realidade da vida de todos, ninguém escapa. Basta abrir um jornal... a desgraça faz parte do quotidiano.
No momento, o sofrimento de milhares de pessoas do Rio Grande do Sul, de São Paulo, do Rio de Janeiro a que se soma a tragédia acontecida no Haiti. Hoje, com o avanço dos grandes meios de comunicação, temos as fotografias terríveis que nos dilaceram o coração, através da TV com diálogos ao vivo de pais, irmãos, esposos, parentes ou amigos dos milhares de mortos.
Digite aqui o resto do post Na década de 1960, lendo uma crônica sobre um desses sofrimentos terríveis acontecido na cidade do Rio de Janeiro, não resisti às lágrimas. Fiz um xérox que conservo comigo até hoje, tão bem estava descrito o sofrimento humano. Ei-la:
“Messias perdeu o pai, a mãe e uma das irmãs no pavoroso desmoronamento das Laranjeiras. – Soube do caso doloroso, pelo rádio, em Niterói, onde trabalha, e se tocou, tal e qual um alucinado, para o palco da imensa tragédia. – O moço não come nem dorme. – Permanece olhando, estatelado, aquela vastidão de pedras, pedaços de barras de concreto, destroços e mais destroços. – 96 corpos já foram retirados. Seu progenitor continua soterrado. – A velha mãe também. – E a mana mais moça. – Messias está obstinado. Inteiramente desligado de qualquer interesse ou preocupação. – Ninguém consegue demovê-lo. – Sair dali. Ganhar abrigo pela madrugada. – Messias não quer deixar a rua General Glicério. Por nada deste mundo. Mantém-se calmo. Não diz palavra. Nem faz gestos. Muito menos chora ou grita.Somente outro dia teve um acesso. – E explodiu: “Não pode ser!... Meu pai era bom!... Não fez mal a ninguém!... Minha mãe, uma santa!... Por quê?... Por quê?..” E, numa crise de choro, pela primeira vez, exclamou: “Preferiria até mesmo encontrar meu pai preso, na cadeia, por ladrão ou num hospício, sem razão, mas nunca assim, esmagado sob as ruínas de um edifício do bairro que tanto amou!...”
Felizmente Messias não é um homem só. – Todos estão vivendo o seu drama. Compreendem a sua dor. – Seus companheiros de trabalho deixaram o serviço. São 32 homens. Estão a seu lado. Dia e noite!
E uma senhora, humilde, toda de preto, não pára de rezar. Faz preces pelos mortos já resgatados e pelos que ainda se encontram soterrados. “Acabo de rezar pela família do Messias. – Pedi a Deus e aos santos de minha devoção para que todos sejam logo encontrados. Só assim a tensão do rapaz se desvanecerá. – Finalmente então poderá dormir.”
Existe uma cruzada de solidariedade humana, em torno do jovem Messias. – Ao seu lado, uma multidão. Que lhe dá conforto, estímulo. Que lhe pede para comer, beber água. Fora disso, a expectativa. E os compressores de ar que zumbem. E os guindastes levantando pedaços de lajes de concreto, peças íntimas, restos de poltronas, bonecas, panelas... – Para Messias existe um mundo. Um mundo todo seu. Um mundo desmoronado” (Telmo Ferrari – “Crônica do Rio” Extraída do Correio do Povo de Porto Alegre)
1. – O que é o sofrimento?
Realidade de múltiplas fisionomias, o sofrimento não existe em si, isto é, não existe, em determinado lugar, alguma coisa que se chama sofrimento e que nos cai por cima. Situa-se em nós: é uma reação humana diante de certas coisas. Existem fora de nós coisas que podem ser causas de sofrimento ou desgraça. Exemplo: as chuvas torrenciais que ultimamente estão provocando deslizamentos. Trata-se de um fenômeno geológico e pessoas se encontram ali. Se esses deslizamentos acontecessem na Amazônia desabitada, ninguém os perceberia como um mal, uma desgraça.
Mesmo se não nos atingem diretamente, não permanecemos indiferentes a essas catástrofes que se abateram sobre o Haiti. A gente se sente atingida numa grande solidariedade que comunga com a solidariedade das pessoas que vivem naquela ilha, solidariedade muito semelhante à que as pessoas tiveram com o Messias da catástrofe do Rio de Janeiro, segundo a crônica do jornal.
Donde provém a solidariedade? Da reciprocidade que há nas pessoas: sou simétrico de todos, um é a réplica do outro. Através da reciprocidade, o outro é como um espelho para mim: posso ler-me nele. Procura-se viver as mesmas emoções, estados de alma... sofremos com aquele que sofre, etc.
Nos desabamentos do terremoto do Haiti, há toda uma multidão que, de repente, se dá conta da fragilidade da vida. Apodera-se de todos uma emoção profunda, mas tão profunda, que a maioria prefere afastá-la ou esquecê-la. É como se dissesse: “É horrível! Eu poderia estar no lugar deles... Felizmente desta escapei!”Portanto, duplo sentimento face a uma catástrofe como essa do Haiti: tem-se ao mesmo tempo vontade e medo de ver.
São sempre pessoas que sofrem direta ou indiretamente. O sofrimento, de modo geral, não é senão a consciência que se toma em certos momentos de um mal-estar no universo, de uma harmonia que não se realiza e se quebra nos soluços de uma pessoa. Portanto, o sofrimento é subjetivo, não se exprime em quantidade, daí porque não se pode comparar os sofrimentos dizendo: “este sofre mais do que aquele.” A tendência é sempre achar que se sofre mais do que o vizinho... porque a dor do vizinho não a sinto. Além disso, uma mesma desgrapça, para uns: ”afinal, vive-se tão bem com uma perna só, quanto com duas!” – Outros nunca conseguem superar a nova situação.
2. Por que se sofre?
Os sofrimentos, a desgraça, serão uma punição? Claro que não, embora instintivamente se pense na causa do mal.
* Até parece normal que alguém sofra as conseqüências de seus atos. Instintivamente procura-se uma justificativa. Alguns dizem monstruosidade do tipo: “isso que aconteceu no Rio é castigo... fizeram horrores nesse último carnaval!”
* Se não se vê logo a causa, vai-se à hereditariedade: “fulano não é certo... também... filho de beberrão...” “E onde está a justiça? Que fez a criança de mal para pagar pelos pecados do pai?”
* Outros males não têm explicação e provocam um verdadeiro escândalo: não se encontra explicação racional... deixamo-nos à interrogação de Messias “por quê? que é a mesma do chargista do jornal Zero Hora: “Haiti... Por quê? Por quê?”
E as observações mais impróprias surgem face a esses males, caricaturando a justiça divina, fazendo de Deus um carrasco. “O Deus de vocês não é bom. Quando perdi meu filhinho no hospital, uma freira me disse: “É porque Deus quis um anjinho a mais junto dele.” Como é que Deus pode ser chamado bom se Ele tira os filhos das próprias mães?”
Um escândalo que ficou marcado na história do século XX, um dos piores males da nossa época: o massacre e a cremação de judeus em campos de concentração... A mesma pergunta se faz um judeu no campo de concentração: “onde está Deus?” Aliás essa mesma pergunta repetiu-a o própria papa Bento 16, ao visitar, há pouco, um desses campos de extermínio: “Aonde estava Deus na época desses massacres?”
A mesma pergunta que se fizeram o judeu e o papa, influenciou toda a obra de um grande escritor argelino-francês, Albert Camus, falecido há pouco tempo. Diz ele: “o que eu odeio é a morte e o mal”. O ponto culminante de uma de suas obras “A Peste” é a morte trágica de uma criança. O dr. Rieux diz ao Padre Faneloux: “o senhor sabe muito bem que este era inocente!”
Diz ainda Camus: “Recusarei até a morte de amar esta criação onde as crianças são torturadas”. E Camus desenvolve a alternaativa: “Ou nós somos livres e Deus todo-poderoso é responsável pelo mal, ou somos livres e responsáveis, mas Deus não é o Todo-Poderoso.”
Esta cena do romance “A Peste” foi inspirada num fato presenciado por Camus. Aos 15-16 anos, passeando ao longo da praia de Argel, com um amigo, viu uma criança árabe esmagada por um ônibus. Havia um ajuntamento de pessoas: o pai da criança, abobalhado de estupor, a mãe dava gritos lancinantes; e os demais, apatetados.
Camus olhou, afastou-se dali, mostrou o céu azul, depois o grupo, e disse ao amigo: “Vê, o céu não responde!”
A eterna interrogação de todos: Camus, o judeu e o papa no campo de concentração, Messias face aos deslizamentos e hoje, o chargista do jornal.
3. O que é que Deus diz a respeito do sofrimento?
Para o cristianismo, não se fala em problema do mal, mas o problema se transmuda em mistério. O problema é da ordem do raciocício, admite explicações. Ao mal, Deus não responde através de soluções exteriores, mas Ele mesmo, em pessoa, vem e se engaja conosco em nossa condição humana, em nossa condição de homens sofredores.
No Antigo Testamento, Deus já falava a respeito do sofrimento, principalmente através do livro de Jó. Em certo momento, Jó não agüenta mais e diz: “Vós falais do vosso ponto de vista, e por isso não podeis compreender a minha situação” e no final Deus dá a Jó uma lição de sua transcendência... (isto é: “você é criatura. O que pode entender do meu mistério?”)
Com Jesus Cristo tudo muda: Deus se coloca no ponto de vista do homem, ao lado do homem. Ele é o Emanuel, ou o “Deus-conosco”.
Através dos fatos históricos da vida do Homem Jesus de Nazaré, encontramos o eco das nossas próprias perguntas. A eterna pergunta que os homens se fazem “por quê?”, é feita por Jesus Cristo. E isso é que é desconcertante.Aquele que poderia trazer a resposta que nos libertaria deste eterno interrogar-se faz a mesma pergunta, dependurado da cruz: “Meu Deus, meu Deus, por quê?” E morre sem ter ouvido a resposta...
Mas há uma diferença entre o interrogar-se de Camus, Messias, o judeu, o papa, o chargista e nós e o interrogar-se de Cristo. Jesus, através do sofrimento, descobre duplamente Deus...
Camus, por exemplo, acha que a gente sofre, se desespera e se cai no nada, isto é, para ele o sofrimento é um absurdo: “não há nada a compreender.”
Jesus Cristo não vê a explicação mas descobre o mistério: DEUS. Daí porque se fala em mistério do sofrimento, isto é “nunca compreenderemos tudo, sempre haverá o que descobrir no sofrimento.” No término de um sofrimento, é o próprio Deus que ali se descobre.
O que é certo é que a partir deste momento o próprio Deus participa da nossa condição, laços de solidariedade e comunhão nos unem...
Na pessoa de Cristo, vivo, presente entre nós, Deus está do lado da luta humana contra o mal. Se nosso mundo é um mundo quebrado, Deus está conosco para transformá-lo. Se há um pecado contra o qual devemos lutar, é a resignação, entendida no sentido pejorativo. Essa resignação passiva impede-nos de lutar. O próprio Deus não se conservou passivo face ao sofrimento: gritou sua indignação.
Qual então a atitude face ao sofrimento?... – Não adiantam as palavras... saber calar-se, isto é, aceitar de não conhecer a explicação de tudo... respeitar em si e no outro o indizível, procurar pacientemente o sentido para além das palavras.


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