quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

AS PERGUNTAS QUE OS JOVENS DIRIGEM A JESUS

"Jesus é o homem que cessa de fazer de si mesmo o centro do mundo e se põe a serviço de uma realidade mais importante de si. A Igreja também deve deixar de fazer de si mesma o centro do mundo e deve se colocar ao serviço de algo maior do que ela mesma".

Essa é a opinião do teólogo italiano Vito Mancuso, em artigo publicado no jornal La Repubblica, 12-01-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o artigo.

O Sermig de Turim, movimento católico fundado por Ernesto Olivero, submeteu um extenso questionário sobre a figura de Jesus a milhares de jovens. À pergunta número 7, que perguntava "O que você diria a Jesus se pudesse falar com ele hoje?", as principais respostas dos jovens foram as seguintes: Por que se deve morrer? Que sentido tem a minha vida? Por que existe o mal? Por que tantos jovens morrem? O que me espera depois da morte? Por que me criaste?

Essas perguntas dos jovens a Jesus (hipotéticas quanto à possibilidade de chegar ao destinatário, mas absolutamente reais quanto ao valor existencial) mostram uma intensa necessidade de significado, se poderia dizer, de filosofia. Mais do que a Jesus como personagem histórico individual, as interpelações dos jovens se dirigem ao Cristo, ao Filho de Deus enquanto Deus, a Deus, ao Absoluto. São três, de fato, as questões capitais: 1) quem sou eu e por que estou aqui; 2) por que este mundo está cheio de injustiça; 3) o que será de mim depois da morte.

Hoje, a teologia e a pregação da Igreja estão concentradas sobre o Jesus histórico, sobre a sua existência, a sua pregação, a sua mensagem, a sua morte e a sua ressurreição. Os cursos bíblicos organizados pela paróquias não se contam mais. Mas essas perguntas mostram claramente que o interesse dos homens de hoje não é por uma história distante, destinada a cada ano a se tornar sempre mais distante, mas sim pelo sentido desta vida aqui e agora.

Jesus não interessa como personagem histórico individual ao qual ocorrem coisas especiais (é emblemático que nenhum dos jovens lhe pediria luz sobre a sua concepção virginal, sobre a vericidade dos seus milagres, sobre os responsáveis pela sua morte, sobre a realidade da sua ressurreição), mas interessa como o mestre ao qual pedir explicações sobre esta vida. Uma resposta de um rapaz de 15 anos até colocava em crise o sacrifício expiatório de Jesus, ou melhor, a teologia tradicional que interpreta Jesus como "vítima imolada pela nossa redenção" (como ele é definido por algumas palavras do cânone da missa).

O que aparece, então, a partir das perguntas dos jovens? Aparece aquilo que Hegel já via como o limite da consciência cristã tradicional, isto é, o fato de ser uma "consciência infeliz". Desses jovens, surge claramente uma desorientação sobre a sua identidade de homens, sinal da ineficácia das respostas tradicionais da fé ouvidas nas lições de catequese.

Diferentemente do que ocorria no tempo de Santo Agostinho e de São Tomás de Aquino, da fé cristã de hoje não surge mais uma visão verdadeira e confiável do mundo. Por isso o sentimento difundido de infelicidade, por isso o desconforto com relação ao próprio estar no mundo. Os crentes adultos suprem essa incerteza teorética com o recurso ao princípio de autoridade (é assim porque sempre foi ensinado que é assim), mas com os jovens esse princípio (feliz ou infelizmente, não sei) não funciona.

Há um ditado medieval que diz: "Vengo non so da dove; sono non so chi; muoio non so quando; vado non so dove; mi stupisco di essere lieto" [Venho não sei de onde; sou não sei quem; morro não sei quando; vou não sei aonde; admiro-me de ser feliz]. O filósofo Karl Jaspers, que o cita no começo do livro "La fede filosofica di fronte alla rivelazione" [A fé filosófica diante da revelação], diz que, por causa dessa união de ignorância e de alegria, esse ditado não pode ser cristão. E depois acrescenta um aprofundamento terrível, afirmando que, pelo contrário, a consciência cristã tem, sim, as respostas a todas as questões, porque sabe de onde vem, porque sabe quem é, porque sabe que irá morrer quando Deus o decida (nem antes e nem depois), porque sabe aonde irá, mas, sabendo tudo isso, não está nada feliz, nada serena, mas está imersa na mortificação e em uma contínua tensão com o mundo com o qual não consegue se reconciliar.

A meu ver, ele tem razão: a consciência cristã muito frequentemente se parece com uma consciência infeliz, às vezes torna-se até agressiva, principalmente naqueles que cultivam sobre todas as coisas a adesão à doutrina estabelecida da hierarquia eclesiástica e que conjugam o verbo "crer" sempre ao lado de "obedecer e combater".

De onde nascem, pelo contrário, aquele estar feliz em profundidade, aquela alegria inextirpável pela vida, aquela calma do espírito e da mente, que são a marca de uma autêntica experiência espiritual e que sozinhas podem dar respostas convincentes às inquietações dos jovens? Nascem do saber estar em casa neste mundo de Deus, do sentimento de íntima comunhão com o ser e com a natureza que levou Francisco de Assis a escrever o "Cântico das Criaturas" e da certeza de que a encarnação de Deus não se refere só a um dia distante de muitos anos atrás, mas é a dinâmica que se concretiza a cada dia, em todos os homens que amam o bem e a justiça.

Jesus é o homem que cessa de fazer de si mesmo o centro do mundo e se põe a serviço de uma realidade mais importante de si. A Igreja também deve deixar de fazer de si mesma o centro do mundo e deve se colocar ao serviço de algo maior do que ela mesma, do bem comum e de todo indivíduo desta nossa sociedade, crente ou não crente, branco ou negro, hetero ou homossexual.

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