A reaproximação com os lefebvrianos e os anglicanos e as aberturas aos ortodoxos. Assim Bento XVI vai à reconquista dos cristãos da Europa.
A reportagem é de Marco Ansaldo, publicada no jornal La Repubblica, 25-11-2009. A tradução é de Benno Dischinger.
“O Vaticano estacionou seus tanques no jardim do arcebispo de Canterbury. Com uma pretensão de diálogo, mas, à sombra de auspícios armados, iniciou-se ontem em Roma a terceira fase dos colóquios entre a Igreja católica romana e a da Inglaterra. Entre comentários benévolos e julgamentos duros. A recente decisão do Papa Ratzinger de lançar uma nova Constituição apostólica, acolhendo no seio da Santa Sé os tradicionalistas anglicanos, é uma iniciativa considerada explosiva, que não deixou de semear irritação entre os sequazes da Igreja de Henrique VIII.
O confronto é apenas o último em ato, no Ocidente, no âmbito da fé. Na realidade, o mundo religioso inteiro parece estará em alvoroço. Os lefebvrianos, opositores das reformas, iniciaram também eles os colóquios para transpor as portas da Igreja de Roma. Os ortodoxos prosseguem com os católicos uma política do diálogo, feita, no entanto, “em pequenos passos”. A Corte europeia para os direitos humanos intima com uma sentença a Itália a retirar o crucifixo das salas de aula. Enquanto, por primeira vez, uma mulher-Papa é eleita como guia dos protestantes alemães.
O que está sucedendo na esfera hierárquica religiosa? Não existe, por conseguinte, somente um confronto entre o Islã e a Cristandade. Há, no interior da grande comunidade cristã, uma guerra entre modos de ter fé. Um desencontro áspero, mitigado, na aparência, por tons conciliadores e atenuados. Uma batalha apenas iniciada e da qual a ofensiva de outono de Bento XVI parece representar apenas o primeiro passo.
O arcebispo de Canterbury, Rowan Wlliams, suprema autoridade da Igreja anglicana, recém deixou Roma onde enfrentou, com o Papa, o nó representado pela publicação de uma Constituição apostólica que permitirá a grupos dissidentes de reentrar em bloco. “O diálogo prossegue”, diz a declaração elaborada no final do difícil encontro entre o Papa e o Primaz da Inglaterra.
“Nenhum reide, - comentou Williams, - o copo ecumênico está metade cheio”. Mas, a decisão tomada é acolhida polemicamente por setores anglicanos menos radicais. O arcebispo de Canterbury foi tomado de improviso pela escolha de Ratzinger. “Fui informado no ultimíssimo momento”, escreveu numa embaraçada carta aos seus bispos. “É um golpe mortal ao anglicanismo – comenta Times, muito atento sobre a ocorrência como toda a imprensa britânica – que prejudicará o diálogo ecumênico, enfraquecerá a Igreja da Inglaterra e inevitavelmente limitará o seu papel”.
Se os anglicanos moderados acusam o Vaticano, outras facções, ao invés, apóiam favoravelmente as modificações. O bispo de Fulham, John Broadhurst, líder de um grupo que se opõe à ordenação das mulheres a bispos, define a ação do Pontífice como um “momento decisivo” e prevê que até 1.000 religiosos dissidentes possam agora transitar à Igreja católica romana. Na Austrália centenas de tradicionalistas que se opõem às tendências liberais da Igreja anglicana, em particular aos matrimônios gay e ao sacerdócio feminino, festejaram o anúncio nas paróquias com mais de vinte sacerdotes, em geral casados, que não deverão renunciar ao seu vínculo matrimonial. Mas, Christina Rees, do movimento pró-mulheres “Watch”, descreve a escolha de Bento XVI como um “desbordamento”: “Uma coisa é oferecer acolhida. Esta parece, no entanto, ser particularmente calorosa”.
Acenos críticos não faltam na Itália. “A meu ver estamos assistindo a uma divergência que se amplia sempre mais, no plano ético mais do que no teológico – é a opinião do pastor Giuseppe Platone, diretor de Riforma, semanário das Igrejas evangélicas batistas, metodistas e valdenses cristãs, e agora representante da Igreja valdense em Milão – de um lado estão os conservadores que tem e querem o Papa, do outro os sem-Papa. É, em substância, um comportamento anti-ecumênico, não em sintonia com a Carta subscrita em Estrasburgo, em 2001, por todas as igrejas cristãs”.
O grande fermento em todo o mundo protestante é também dado pela recente nomeação, na Alemanha, de uma Papisa luterana à frente da Igreja evangélica alemã. Margot Kaesmann, de 51 anos, mãe de quatro filhos, divorciada, já bispo de Hannover, fisionomia conhecida pelos programas televisivos, é conhecida por sua personalidade carismática, batalhadora, pouco diplomática, mas com um carisma tal que lota as igrejas onde prega, comovendo o seu auditório até as lágrimas. A primeira mulher-Papa representa uma revolução até mesmo num país guiado por uma chanceler, e onde as mulheres estão assumindo responsabilidades sempre mais relevantes.
Esta sua eleição chega num momento delicado das relações ente a Igreja de Roma e os luteranos: é de apenas algumas semanas atrás a publicação de um relatório interno que ataca a atual liderança católica, a começar pelo Pontífice, por seu escasso empenho ecumênico. Caso que entrou após uma solicitação de escusas. Em todo o caso Kaessmann, eleita mulher do ano por um semanário alemão, em seu discurso de posse apontou imediatamente sobre a questão social. Retornando de uma vitoriosa batalha contra o câncer, ela se bate em favor do salário mínimo, por um maior cuidado das pessoas anciãs e daquelas afetadas por enfermidades, além da acolhida dos prófugos extracomunitários.
“A notícia de sua eleição – observa Platone – é um raio de sol. Margot Kaessmann é a face solar do protestantismo. Direi que nos encontramos numa fase na qual há duas igrejas que se confrontam: em termos políticos traduzi-lo-ei num bloco das direitas e num outro das esquerdas. Uma frente que segue o rito e a tradição, e outra a dúvida e as reformas”. A Itália já tem duas mulheres de cúpula no setor: Maria Bonafede, moderadora da Tavola valdense, e Anna Maffei, presidente da União cristã evangélica batista.
Entrementes, no Vaticano, no Prédio da Congregação para a doutrina da fé, o mesmo que por mais de vinte anos hospedou as tratativas entre monsenhor Marcel Lefebvre e o então cardeal Joseph Ratzinger, saíram os colóquios para acolher os lefebvrianos. Escutando-os, fica claro que já se sentem plenamente católicos. “O Papa Bento XVI, a autoridade que reconhecemos – assegura o superior geral da Fraternidade São Pio X, monsenhor Bernard Fellay – é muito mais aberto do que alguns bispos. Há problemas, mas estes problemas não significam que perdemos a relação de submissão à autoridade do Santo Padre”. E, como os grupos anglicanos que se preparam para reentrar, também a Fraternidade S. Pio X, fundada pelo arcebispo francês depois excomungado pelo Papa Wojtyla, poderia ser elevada a “prelatura pessoal”. Em 88 as tratativas entre Lefebvre e Ratzinger naufragaram. Mas, entrementes Bento XVI realizou atos importantes em seu favor, embora contestados pelas alas progressistas.
As reações não faltam. Holger Milkau, decano da Igreja evangélica luterana, considera-o “um obstáculo enorme num caminho já muito difícil”. “Vejo nesta decisão do Papa sofrida pelos anglicanos – explica – um verdadeiro e próprio cisma interno numa igreja da reforma. E isto me desagrada, sobretudo para as irmãs e os irmãos anglicanos que de fato não necessitam da acolhida do Pontífice para se considerarem dignos e válidos cristãos. Os protestantes devem deixar de se sentir católicos de segunda classe”.
A alfinetada do teólogo suíço Hans Kung, há 30 anos sancionado pelos vigários de Pedro que se sucederam, contra um Papa “que pesca principalmente na margem direita do lago”, lá “onde as águas são turvas”, desencadeou reações oficiais. “Um gesto – escreveu no Osservatore romano o diretor Giovanni Maria Vian – que é voltado a reconstituir a unidade querida por Cristo e reconhece a longa e fadigosa caminhada realizada neste sentido, mas que é distorcida e representada enfaticamente como se se tratasse de uma astuta operação de poder a ser lida em chave política, naturalmente de extrema direita”.
Também o front interno dos cristãos católicos está em ebulição, e não só pelo caso do crucifixo. O debate se concentra nas exigências provenientes dos setores mais “laicos”, como a questão da eleição direta dos bispos e a escassa formação de padres que – muitas homilias enfadonhas o evidenciam – não parecem suficientemente preparados tanto de um ponto de vista doutrinário como de divulgação. A Igreja é chamada a responder a enormes desafios. No Osservatore, a jornalista americana Marguerite A. Peeters apontava o dedo contra “uma minoria de experts ocidentais secularizados, e mesmo laicistas”, acusados de transformar e desconstruir silenciosamente todas as culturas. “Impõe-se com urgência – concluía a articulista – um esforço de discernimento intelectualmente sério, que ainda não foi feito”, sobre os desafios desta nova ética pós-moderna em relação aos quais “a Igreja continua ignorante”. Em cada front, a batalha apenas começou.


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