domingo, 5 de setembro de 2010

''TEMPO DA CRIAÇÃO'': SOBERANIA DE DEUS, RESPONSABILIDADE HUMANA

A partir deste domingo e até o dia 4 de outubro, sempre aos domingos, dentro da proposta do Tempo da Criação 2010, as Notícias do Dia irão publicar reflexões sobre as principais leituras das celebrações dominicais do Lecionário Comum das Igrejas cristãs.

Os textos são de autoria do reverendo anglicano inglês Keith D. Innes, membro do Churches Together in Britain and Ireland (www.ctbi.org.uk), órgão ecumênico que reúne diversas Igrejas cristãs dos dois países nórdicos, e buscam incentivar e apoiar as Igrejas a observar o Tempo da Criação a cada ano, para a proteção da criação de Deus e a promoção de estilos de vida sustentáveis.

O tema do Tempo da Criação deste ano – "Criação florescente: Um momento para a celebração e o cuidado" – também está relacionado ao Ano Internacional da Biodiversidade das Nações Unidas e à campanha 10.10.10.

As reflexões desse período serão as seguintes:

Semana 1: 5 de setembro
Soberania de Deus, responsabilidade humana

Semana 2: 12 de setembro
A comunidade de toda a criação

Semana 3: 19 de Setembro
As consequências da ganância e da injustiça

Semana 4: 26 de setembro
O amor ao dinheiro e suas consequências

Semana 5: 04 de outubro
Dia de São Francisco - Colheita de Ação de Graças

Eis o texto.

Soberania de Deus, responsabilidade humana
5 de setembro de 2010
14º Domingo após a Trindade – 23º Domingo do Tempo Comum

Leituras:
Jeremias 18, 1-11
Salmo 139, 1-5.12-18 [1-7]
Leituras relacionadas: Deuteronômio 30, 15-final; Salmo 1
Filêmon 1-21
Lucas 14, 25-33

A soberania de Deus é fundamental para o testemunho da Bíblia. Deus reina no amor santo e infalível. A forma como experimentamos o preceito da soberania de Deus depende de nossas escolhas. A verdade da soberania de Deus é equilibrada pela nossa responsabilidade. Deus é como o oleiro. As nações e os povos são como o barro (Jeremias 18, 5). Os propósitos de Deus nem sempre se realizam, porque as nações e as comunidades às vezes resistem ao plano de Deus. Nesse caso – olhando para o processo a partir de um ponto de vista humano –, Deus pode descartar essa fase do projeto e começar de novo, não desistindo nunca. O processo funciona de ambas as formas: se um povo provoca o desastre a si mesmo, mas depois muda de direção e age com sabedoria e justiça, o julgamento será evitado. Do contrário, se inicialmente um povo der a Deus a sua fidelidade, confiança e obediência, mas depois voltar-se para longe do caminho de Deus, será privado do bom resultado que seria seu (compare com Ezequiel 33, 10-16).

Qual a relevância dessa imagem para as questões ecológicas? Os profetas do Antigo Testamento viam o mundo natural como uma resposta às ações humanas. A natureza está envolvida em vida humana, para o melhor ou para o pior. Os exemplos de Jeremias estão em 12, 10-13, 22, 6-9, 31, 12-14. Veja também Isaías 24, 4-7; Oseias 4, 1-3. Estamos aptos para ver as raízes dos abusos ecológicos em termos econômicos, políticos e tecnológicos. Mas Michael Northcott tem mostrado que há uma profunda dimensão espiritual: "Quando lido à luz da leitura teológica da geopolítica imperial da antiga Mesopotâmia por Jeremias, o aquecimento global, assim como o exílio do antigo Israel, representa tanto a ameaça de julgamento quanto a promessa de uma melhor forma de viver na terra de Deus do que a visão neoliberal de um império do mercado global" [1].

Os seres humanos e as outras criaturas formam uma complexa teia de inter-relações e estão unidos para receber o julgamento e a bênção de Deus. Olhando para a passagem em análise sob essa luz, podemos ver que o pecado ecológico leva ao julgamento. A fidelidade em lidar com o mundo de Deus nos capacita a sermos instrumentos e beneficiários das bênçãos de Deus.

Várias outras leituras enfatizam a inevitabilidade da escolha. Deuteronômio 30, 15-final apresenta a conclusão de um discurso de Moisés, que é introduzido no capítulo 29, 1. Ele se refere à renovação da aliança de Deus com os israelitas. A cena é apresentada na terra de Moab, na extrema margem da Terra Prometida. Como muitas outras partes da Bíblia, ela oferece uma alternativa clara entre o bem e o mal, entre a retidão e o pecado, a bênção e o julgamento. Só o falso dualismo que separa o corpo do espírito, a ecologia da economia, poderia nos levar a supor que tais escolhas espirituais básicas não têm nada a ver com as crises ecológicas. Em escala individual, a mesma escolha básica é exposta de forma simplificada no Salmo 1.

Em Lucas 14, 25-33, Jesus não torna o discipulado mais fácil, a fim de evitar que se "ponha pessoas para fora". Pelo contrário, ele vai ao encontro do entusiasmo com exigências severas. A frase sobre "odiar" os próprios entes queridos e até mesmo a si próprio, sem dúvida, não é um incentivo à negligência ou à rejeição da família ou ao ódio a si mesmo. Ela significa que nada deve ter prioridade sobre a nossa fidelidade a Cristo. O discipulado exige realismo. Em resposta ao chamado para seguir Jesus, devemos levar em consideração o que isso significa cuidadosamente. Temos que "avaliar os custos" de forma tão verdadeira quanto aqueles que se engajam na construção civil ou em campanhas militares.

Ao aplicar esses princípios ao cuidado da criação, temos que reconhecer que somos limitados, em certa medida, pelas falhas do governo e pelas estruturas da sociedade. Mas ainda temos que tomar decisões sobre o nosso estilo de vida, consumo, filiação política, hábitos de férias e assim por diante. Conscientes de nossas imperfeições, ainda somos chamados a progredir ao longo do caminho com Jesus, identificando-nos com a sua forma de se autodoar e nunca nos contentando com nossas meias-medidas.

Notas:
1. Michael S. Northcott. A Moral Climate; The Ethics of Global Warming. Londres: Darton, Longman and Todd, 2007, p.15.

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