terça-feira, 20 de julho de 2010

NA IGREJA CATÓLICA DO BRASIL O RECONHECIMENTO OFICIAL DE DIFERENTES JEITOS DE VIVER A MESMA FÉ

"“Só uma Igreja com diferentes jeitos de viver a mesma fé será capaz de dialogar relevantemente com a sociedade contemporânea”. Com isso eles quebraram a pretensão de um único modo de ser, aquele da Tradição do poder. Sem negar este, há muitos outros jeitos: o jeito da Igreja da libertação, dos carismáticos, dos religiosos e religiosas, da ação católica, até da Opus Dei, da Comunhão e Libertação e da Canção Nova, só para dizer as mais conhecidas”, escreve Antonio Cechin.

Eis o artigo.

Desde que Dom Hélder Câmara, nosso bispo maior, nos iniciou à “opção pelos pobres” surgiu no Brasil um novo modelo de Igreja. Os grandes meios de comunicação consagraram a novidade através da caracterização de Igreja Progressista para o modelo novo, que também foi chamado de Igreja Popular, justaposto a outro, de Igreja Conservadora, designativo do modelo hegemônico, isto é, da maioria absoluta dos católicos que quase nada mudou até os dias de hoje.

Aos poucos também fomos constatando que nosso episcopado foi tomando duas posições. Um grupo, grandemente majoritário, passou a ter seus olhares sempre voltados para o Vaticano, isto é para o papa, em permanente busca de ortodoxia, enquanto um segundo grupo, minoritário, inclina sempre mais seus olhares sobre os pobres da nação a fim de entender cada vez melhor as causas da miséria e dos sofrimentos. Estes últimos, à semelhança dos magos, perscrutam dia e noite, com sumo cuidado “os sinais dos tempos” na expressão recuperada da Bíblia pelo saudoso papa João XXIII, posta em destaque na encíclica Mater et Magistra.

Continuamos até hoje tendo a mesma sensação de antanho, quando caracterizamos nosso modelo novo de “primavera na Igreja” fazendo contraponto com o conservadorismo apelidado de “inverno dentro da Igreja”. Quando hoje se acentua a “crise da Igreja Católica” que humilha profundamente os cristãos, somos surpreendidos pela aterrissagem em Porto Alegre de Frei Raniero Cantalamessa, o pregador da Casa Pontifícia que, diretamente do Vaticano, vem aqui destilar ortodoxia. A Igreja voltada para o Vaticano, não contente de ter os olhos fixos no Papa, importando do Vaticano um pregador da Casa Pontifícia com o sinete do “anel do pescador”.

Em entrevista concedida ao jornal “Comunicador”, órgão oficial da arquidiocese de Porto Alegre, à pergunta do repórter: “Por que o senhor escolheu o tema do Espírito Santo para falar aos sacerdotes e religiosos de Porto Alegre?” o pregador da Casa Pontifícia responde: “Penso que o Espírito Santo é a primeira necessidade da Igreja...Temos que crer que apesar de muitos problemas, inclusive os escândalos que vivemos, o Espírito Santo conduz a Igreja hoje.” Ótima resposta para os “conservadores” porém incompletíssima para a “Igreja dos pobres” que perscrutam sempre “o Divino Espírito Santo em ação aqui e agora, dentro e fora da Igreja” a fim de com Ele caminhar, construindo história humana e ao mesmo tempo história da salvação.

A segunda parte da entrevista com o pregador romano, foi sobre “a Igreja e os Judeus” devido a um imbróglio em que esteve envolvido quando comparou a perseguição que sofre hoje o papa com o holocausto de que sofreram os judeus durante o nazismo. Comparação que gerou grande mal-estar ao povo judaico. O repórter pergunta: “Sua afirmação foi utilizada de modo equivocado?” Cantalamessa responde: “A imprensa tomou uma frase destacada, entendendo por anti-semitismo o holocausto, que é algo totalmente diferente. Para mim esse é um exemplo clássico de como atuam os meios de comunicação de massa, que retiram de uma frase um conteúdo equivocado. As entrevistas desconsideram os contextos. Esse é o preço que se paga por uma comunicação global e em tempo real.”

Nos mesmos dias em que o pregador da Casa Pontifícia estava na capital, houve a reunião anual da cúpula da Igreja do Rio Grande do Sul. Um dos impasses da referida reunião foi sobre um gesto bem concreto da Campanha da Fraternidade deste ano de 2010 cujo tema, em resposta à grave crise econômica mundial, é “Economia e VIDA” sob a luminosidade do lema evangélico saído dos lábios do Nazareno “Vocês não podem servir a Deus e ao dinheiro” (Mt 6, 24)

Dentre as sugestões para um AGIR consentâneo, à página 71 do livro-guia da Campanha, está a mobilização de apoio ao Plebiscito de iniciativa popular pelo Limite da Propriedade da Terra, em defesa da Reforma Agrária e da Soberania Territorial e Alimentar. Todas as comunidades cristãs (dioceses, paróquias, sínodos, presbitérios, etc.) podem articular ou integrar-se aos comitês estaduais ou municipais criados para propor um limite à propriedade da Terra. Em duas frentes:* Coleta de assinaturas exigindo que se crie um instrumento legal que limite o tamanho da propriedade da Terra. * Participação no plebiscito a se realizar no Grito dos Excluídos em setembro de 2010.”

O entrechoque entre os dois “jeitos de ser Igreja no Rio Grande do Sul” se tornou patente uma vez mais. Não faltaram bispos, padres coordenadores de Pastoral, religiosos e leigos se manifestando contra a participação no plebiscito que, por sinal, não nasceu das hostes eclesiásticas, mas sim de diversas organizações da sociedade civil. Por decisão dos bispos – decisão unicamente deles – se a autorização episcopal não se der por unanimidade, não haverá de jeito nenhum apoio, menos ainda participação da CNBB, quer Regional, quer Nacional. Ora sabemos que a unanimidade em relação ao apoio a tais assuntos é historicamente impossível. Com toda a certeza se deve a esse “modelo” de Igreja o trabalho de catapultar desde o Vaticano, diretamente para Porto Alegre, o pregador papal.

O modelo minoritário de Igreja que se debruça inteiramente sobre os problemas do povo, fiel à leitura dos “sinais dos tempos”, no apagar das luzes do acima referido encontro da Coordenação Regional ou Cúpula de nossa Igreja, ainda conseguiu aprovar uma data dentro deste mês de julho para, durante um dia inteiro, debater exaustivamente entre bispos, padres, religiosos e leigos, novamente, a questão do plebiscito sobre o tamanho máximo de propriedade de terra que a turma do dinheiro pode usufruir. Tamanhas dificuldades quando no Evangelho Jesus felicita “os pobres porque são mansos e construtores da paz e a esse título herdarão a posse da terra.” Com certeza o Mestre, falando em terra, tinha presente o dito de Isaías, o maior profeta do Antigo Testamento,quando amaldiçoa os fazendeirões ou latifundiários: “Ai daqueles que juntam casa com casa e emendam campo a campo, até que não sobre mais espaço e sejam os únicos a habitarem no meio do país” (Isaías 5, 8).

Para esse grupo do “jeito novo de ser Igreja” não dá para ser contra o plebiscito quando temos 184 aldeias de quilombolas em nosso Rio Grande, desprovidas de terra para plantar e assim sobreviver com dignidade. Ao lado dos quilombolas com direito à propriedade da terra garantido pela constituição de 1988, em beira de estradas acampados,dezenas de toldos indígenas inteiramente desenraizados da terra que segundo São Sepé Tiaraju e milhares de companheiros mártires “haviam recebido em herança da parte de Deus e do Arcanjo São Miguel”. Isto sem falar nas milhões de famílias Sem – Terra, ligadas ou não ao Movimento. A propósito destes últimos não me sai da cabeça uma cena inusitada quando, com uma Equipe de amigos do Movimento fomos até o pároco de um município do entorno da cidade de São Gabriel. Os latifundiários montados em fogosos cavalos estavam obstruindo a caravana de pessoas Sem-Terra, homens, mulheres e crianças, impedindo-os de entrar na cidade. Pedimos ao vigário que nos ajudasse na acolhida dos caminhantes em busca da Terra Prometida. Ele, simplesmente disse: “Como é que vou ajudar vocês se é essa gente que me dá, todos os anos, as vacas para a festa da Igreja?”

Por isso e por muito mais, estou inteiramente de acordo com um de nossos maiores teólogos brasileiros do qual pincei a frase abaixo, tendo olvidado anotar seu nome entre parêntesis:

“Inteligentemente, os bispos brasileiros em sua reunião anual em Brasilia de 4-13 de janeiro do corrente ano confessaram: “só uma Igreja com diferentes jeitos de viver a mesma fé será capaz de dialogar relevantemente com a sociedade contemporânea”. Com isso eles quebraram a pretensão de um único modo de ser, aquele da Tradição do poder. Sem negar este, há muitos outros jeitos: o jeito da Igreja da libertação, dos carismáticos, dos religiosos e religiosas, da ação católica, até da Opus Dei, da Comunhão e Libertação e da Canção Nova, só para dizer as mais conhecidas”.

Por isso agradecemos hoje dobradamente a São Sepé Tiaraju nosso herói maior guarani, missioneiro, rio-grandense e brasileiro, pelo seu grito “Esta Terra é nossa porque recebida em herança diretamente de Deus e seu Arcanjo São Miguel. Somente eles nos podem deserdar!” Na esteira desse grito 1.500 Missioneiros Mártires companheiros de Sepé embeberam as terras de nosso Rio Grande com todo seu sangue e trezentos mil índios missioneiros daqui dos 30 Povos das Missões Jesuíticas foram esbulhados de suas terras e levados de arrasto para São Paulo para lá trabalharem como escravos.

Viva São Sepé! Viva nossos Mártires Missioneiros, Padres e Índios neste 2010 bendito em que comemoramos os 400 anos de “Triunfo da Humanidade”! Viva também nosso plebiscito que, depois de dezenas de anos de Campanha da Fraternidade em nosso país, nos dirá se é uma Campanha “fritação de bolinhos” ou se é Campanha realmente eficaz em relação a nossos pobres! É o critério definitivo assinalado pelo Nazareno: “Pelos seus frutos os conhecereis!”

Antonio Cechin é irmão marista, miltante dos movimentos sociais, autor do livro Empoderamento Popular. Uma pedagogia de libertação. Porto Alegre: Estef, 2010.

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