terça-feira, 13 de julho de 2010

CARTILHA SOBRE O DOCUMENTO DA CONFERÊNCIA DE APARECIDA

O Conc. Vat. II afirmando que a Igreja é o Povo de Deus marcou o novo encontro da Igreja com a Humanidade. Medellín e Puebla proclamaram que o povo de Deus neste continente é o povo dos empobrecidos e excluídos. Daí a Igreja ter compreendido que se faz necessário repensar sua presença na vida social e é isto que provocou o nascimento de uma nova teologia e de uma nova forma de ação pastoral.

A teologia da libertação e a filosofia da libertação emergiram na América Latina a partir do grito ético contra a pobreza coletiva vigente e a miséria de milhões neste continente o que é o produto da lógica do capitalismo liberal que ameaça os pobres, porque ele absolutiza as leis do mercado e por esta razão reivindica a autonomia plena do mercado. O pobre diz G. Gutiérrez é a não-pessoa, aquele que não é reconhecido enquanto pessoa pela ordem social existente. Mas ser pobre significa também uma forma de sentir e de conhecer, de pensar, de crer e de sofrer, de rezar, de celebrar, de festejar e de amar, isto é, os pobres geram um mundo, um universo de vida humana.

Por esta razão não tem sentido algum reduzir pobreza a seu aspecto econômico. A partir daqui os pobres e sua libertação constituem o lugar privilegiado a partir de onde os temas filosóficos e teológicos devem ser trabalhados. A questão inicial desta teologia é, por exemplo: como anunciar o amor gratuito de Deus a toda pessoa num mundo em que os seres humanos são reduzidos a não homens?

A palavra "Libertação" tinha justamente a pretensão de exprimir a nova consciência histórica: tratava-se de uma nova forma de compreensão da realidade, a qual foi interpretada, antes de tudo, como uma totalidade histórica, estruturada e contraditória em si mesma. Ao mesmo tempo e como conseqüência desta nova compreensão da realidade, estava em questão um novo posicionamento frente a esta realidade, isto é, tratava-se de engajar-se pela libertação das vítimas desta situação, de irmanar-se com elas eficazmente. O novo, neste contexto, não é propriamente a consciência das desigualdades sociais, culturais, políticas e econômicas, mas a compreensão de que esta situação não é uma etapa num processo que, com o tempo, traria riqueza a todos estes países.

De fato, compreendeu-se que esta situação de pobreza e miséria é um produto, a saber, da forma de organização social. Pobreza e miséria não são simplesmente interpretáveis como um fato natural, mas como o resultado de uma estruturação determinada da convivência histórica humana. Sobretudo na base da organização econômica de tal sociedade as chances da vida e a participação na vida social não são divididas do mesmo modo assim que a pobreza emerge, neste contexto, como um fenômeno coletivo, mesmo conflitivo para cuja superação se faz necessária uma reestruturação dos fundamentos do sistema econômico e social.

A palavra libertação possui, de antemão, um sentido ético: ela expressa a rejeição desta situação de humilhação da pessoa humana e aponta para a exigência de uma transformação radical desta situação a fim de que liberdade, autonomia e irmandade se possam tornar realidade na vida humana histórica. Os pobres são considerados, neste contexto, como sujeitos sociais, embora oprimidos, do processo histórico. A partir daqui os pobres e sua libertação constituem o lugar privilegiado a partir de onde os temas filosóficos e teológicos devem ser trabalhados. A questão inicial desta teologia é, por exemplo: como anunciar o amor gratuito de Deus a toda pessoa num mundo em que os seres humanos são reduzidos a não homens?

A Conferência de Aparecida retomou esta tradição: seu tema central, a evangelização, anúncio e construção do reino de Deus (pág. 16 da Cartilha). A situação específica do mundo de hoje (págs. 19, 20): a vida do planeta; Reação da Igreja, que ouve a palavra de Deus: a opção pelos pobres. A globalização cria novos excluídos, então repensar a opção (pág. 27); As CEBs o modo privilegiado (pág. 8). Esta ação se radica numa mística e espiritualidades profundas que alimentam sua vida e sua missão. Perigos de hoje (pág. 29). Daí o sentido do seguimento de Jesus nesta situação (pág. 39). Nesta luz o doc. trata ainda de algumas questões específicas que devem ser enfrentadas à luz deste espírito: a situação das mulheres, da família, das pastorais sociais.

Manfredo Araújo de Oliveira - Doutor em Filosofia e professor da UFC. Presidente da Adital

[Texto lido por Manfredo Araújo de Oliveira, Presidente da ADITAL, no dia 6 de julho de 2010, por ocasião do lançamento da Cartilha "HOMENS NOVOS E MULHERES NOVAS: O DOCUMENTO DE APARECIDA PARA COMUNIDADES E GRUPOS DE REFLEXÃO" em Fortaleza, Ceará (Cf. em http://www.adital.com.br/site/conteudo.asp?lang=PT&ref=livro_cartilha).

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