segunda-feira, 21 de junho de 2010

A FÉ DO CENTURIÃO

"Já são muitas as pessoas de grande qualidade que, como Saramago, se distinguiram por dedicar o melhor de suas vidas à defesa das causas mais nobres, mas, ao mesmo tempo, muitos, muitíssimos dos que se dedicaram a tudo isso são agnósticos, ateus e, obviamente, nada religiosos."

A opinião é do teólogo espanhol José María Castillo, em seu blog Teología Sin Censura, 19-06-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Eis o texto.

Nesta sexta-feira, faleceu José Saramago, prêmio Nobel de literatura. E na manhã deste sábado, ao começar a escrever este texto no blog, não posso deixar de pensar em algo que me causa um profundo mal-estar: já são muitas as pessoas de grande qualidade que, como Saramago, se distinguiram por dedicar o melhor de suas vidas à defesa das causas mais nobres (a justiça, o direito, a liberdade, a paz, os oprimidos...), mas, ao mesmo tempo, muitos, muitíssimos dos que se dedicaram a tudo isso são agnósticos, ateus e, obviamente, nada religiosos.

O que acontece aqui? Desde já, são também muitos os crentes que, pela força de suas crenças, deram o melhor de suas vidas, e até a própria vida, por essas mesmas causas. Mas isso não tira importância nem suprime o problema que representa o fato, tão repetido, de tantos ateus tão profundamente humanistas. Como também não tira o peso do fato de tantos homens religiosos que deram provas de sobra de viver como uns sem-vergonhas.

Pensando nessas coisas, veio-me à cabeça a recordação daquele centurião romano, do qual falam os evangelhos (Mt 8, 5-13; Lc 7, 2-10; Jo 4, 43-54), um homem tão honrado e tão boa pessoa que não pôde suportar o sofrimento de um "escravo" (doulos) (Lc 7, 2) que estava morrendo em sua casa.

Pois bem, sobre esse chefe militar, que mandava nas tropas de ocupação e que, desde já, não tinha nem podia ter as crenças religiosas dos judeus, disse Jesus: "Em verdade vos digo: não encontrei semelhante fé em ninguém de Israel" (Mt 8, 10 par). Como é lógico, esse militar, que devia ter feito o juramento de fidelidade ao Imperador como "Sumo Pontífice" dos "deuses" do Império, no julgamento de Jesus, tinha mais fé do que qualquer outra pessoa da Palestina daquele tempo.

Que fé esse homem tinha? Com certeza, não tinha as crenças religiosas dos judeus; nem as dos que seguiam Jesus; nem cumpria as observâncias da religião revelada (segundo dizemos na tradição judaico-cristã). Então, que fé esse homem tinha? Por que Jesus afirma que ele tinha fé?

A resposta é muito simples: o que aquele homem tinha era uma enorme humanidade. Era uma boa pessoa plenamente. Pois bem, sem dúvida alguma, nisso consistia basicamente a fé, segundo os critérios de Jesus. Por isso, nos evangelhos, a fé é entendida de maneira muito diferente de como ela é entendida nas cartas de Paulo: a fé em conexão com a "justificação" diante de Deus e, mediante isso, como conquista da "salvação" eterna (Rom 1, 17; 3, 22. 25. 26. 30; 4, 16; 5, 1; Gal 2, 16. 20; 3, 7. 9-12 etc).

São Paulo disse isso no início dos anos 50. Mas 20 anos mais tarde, no início dos anos 70, quando é redigido o evangelho de Marcos e mais tarde os outros evangelhos, a fé é apresentada de outra maneira: já não se trata de uma relação "religiosa" com o "transcendente", mas sim de uma "experiência de humanidade", de vida, de saúde, de confiança em Jesus. Por isso a insistente afirmação de Jesus aos doentes que curava: "Tua fé te salvou" (Mc 2, 5; Mt 9, 2; Lc 5, 12), o que Jesus também disse à mulher de má fama, a grande pecadora, à qual Jesus devolveu sua dignidade (Lc 7, 50). Isso já é outra fé e outra salvação. É a fé que se coloca ao lado dos que sofrem e dos que se veem maltratados pela vida.

Já foi dito o suficiente. Principalmente para se fazer uma pergunta que dá o que pensar: quem tem fé de verdade? Não se pode dizer que existe uma estranha "fé dos ateus", dos que não têm "religião", mas sentem vivamente o humano e têm, por isso, uma grande "humanidade"?

Pelo menos como pergunta – me parece –, temos que enfrentar esse assunto capital. Porque bem pode acontecer que, pensando que temos o dom da fé, na realidade (e segundo os critérios de Jesus), nossa suposta fé não seja precisamente exemplar. Como também pode acontecer que os "ateus crentes" (evangelicamente falando) sejam mais numerosos do que imaginamos.

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