sexta-feira, 20 de novembro de 2009

SEGURANÇA EM ASSIS, CUSTE O QUE CUSTAR



Aconteceu o pior. Agora sim, o que já estava ruim, conseguiu-se piorar, e muito. Aconteceu aquilo que os dirigentes da segurança em Assis, incluindo vereadores, prefeito, delegados, etc., mais queriam. Pois é, aconteceu... Assis apareceu em rede nacional por causa do programa “Tolerância Zero”, para a felicidade de Marcelo Taz – célebre jornalista e criador do programa - e seus companheiros de trabalho da rede Bandeirantes de São Paulo.

O CQC – Custe o Que Custar – programa que vai ao ar às segundas-feiras à noite e combina jornalismo, entretenimento e humor, bateu seu recorde de audiência no horário, atingindo picos de 9 pontos e com média de 6,5 pontos de audiência segundo o IBOPE. E esse pico aconteceu justamente com uma matéria que, a princípio, não parecia conseguir oferecer uma audiência fora do comum. Era uma reportagem como qualquer outra exibida no programa, onde o repórter Danilo Gentili - que já tinha tido problemas com a polícia do Congresso – veio à Assis e por aqui fazia suas brincadeiras habituais com as pessoas na rua, criando piadas e brincadeiras sobre o tema da “Tolerância Zero”.

Porém o pior aconteceu. O repórter, conhecido por ser o mais provocador dentre seus colegas, resolveu “testar” a medida de combate à vadiagem, vestindo-se de mendigo e abordando as pessoas que passavam. A partir da reportagem não é possível saber quanto tempo o repórter permaneceu na condição de mendigo antes de aparecer a polícia para fazer a lei funcionar. Mas ela veio e, sem saber, teve toda a sua ação filmada bem de perto, com microfone bem ajustado e imagem bem clara do que aconteceu.

Apenas o rosto dos policiais e de algumas pessoas foi encoberta pela edição, todo o resto foi visível: após exigirem que o repórter retirasse o gorro que estava usando – daqueles com cabelo rastafari falso colado – e diante da recusa do mesmo, os policiais exigiram que a vítima fosse ao outro lado da rua, afinal de contas eles estavam “trabalhando” bem em frente à um ponto comercial importante da cidade que vende móveis e eletrodomésticos e tem o nome de um estado do nordeste.

Em seguida Danilo Gentili foi imobilizado e revistado – apesar da exigência do repórter em ser revistado na presença de um advogado. O mesmo repórter ainda afirma que foi ferido durante a ação, apesar de sua postura colaborativa. Ao final Danilo Gentili foi conduzido à delegacia para maiores esclarecimentos. Quero acreditar que, diante da verificação de que o rapaz tem emprego fixo e estável, foi liberado e ainda conseguiu uma entrevista com o delegado civil Ivan Ramos Nogueira. Para quem não viu, é só acessar o site http://www.youtube.com e digitar no espaço reservado à busca de vídeo as palavras “Danili Gentili preso Assis”. Pronto, é só escolher o vídeo. Inclusive é possível, e ao mesmo tempo ilegal, transferi-lo permanentemente para o computador.

Nem Marcelo Taz nem Danilo Gentili contavam com o poder da medida de combate à vadiagem. Se soubessem disso antes já teriam vindo à cidade há tempos, para expor o uso de uma lei antiquada e que, aparentemente, recebia ou ainda recebe forte apoio popular. Muito bem cidadãos de Assis, vimos como funciona a repressão ao crime a partir do combate à vadiagem, o vídeo mostra tudo – ou quase tudo se considerarmos que a ação dos policias durante o dia na mais movimentada avenida da cidade talvez possa ser diferente do que a ação realizada em outros pontos. Os fatos ocorridos mostram a verdade da frase: Tolerância zero é sinônimo de intolerância.

Como pudemos deixar que isso acontecesse aqui em Assis? Como uma cidade pacata, com uma população hospitaleira, permite que tais arbitrariedades sejam cometidas abertamente? Como se pôde consentir com tais medidas? Como se permitiu o Tolerância Zero mesmo depois do sucesso da nossa Conferência de Segurança, onde todos concordavam que a cidadania é o caminho para a redução da criminalidade? Agora a cidade está vergonhosamente exposta, podendo ser apontada como atrasada, retrógrada e ignorante. Se muitos acreditam que a presença do presídio manchava a imagem da cidade, que diremos agora da humilhação nacional que passamos? Somos os únicos responsáveis por tudo o que aconteceu, e é nosso dever agora mudar isso.

O maior problema está em encarar a criminalidade e a segurança como unicamente problemas de polícia. Pois não é. Enquanto os índices de violência permanecem baixos – e em Assis são muito baixos diante do que é verificado em outras cidades - podemos ainda implementar com grande sucesso medidas de prevenção à violência. A fórmula de mais polícia contra a criminalidade já se mostrou ineficiente na década de 90, durante as gestões Quércia e Fleury, quando a cidade de São Paulo se tornou uma das mais violentas do mundo. É este caminho que queremos tomar? Certamente não.

Devemos tomar o ocorrido como lição, parar de querer soluções mágicas contra o crime e apoiar “qualquer medida” que reduza a criminalidade. A prisão de Gentili veio em boa hora, antes que entrássemos numa espiral que poderia terminar em cada vez mais violência e mais criminalidade. O que custou à cidade a adoção de medidas afoitas e mágicas? Chega de medidas simplistas! Chega de reagir como gatinhos assustados a cada notícia de violência, exigindo a prisão e, por vezes, a execução até de quem parece ser suspeito. É preciso encarar o problema de frente, com coragem e serenidade de quem sabe que nada se resolve a partir de fórmulas mágicas. Ou seja: é hora de agir!

André Elias Morelli Ribeiro tem 23 anos, é psicólogo e defende, inequivocamente, que segurança só deve ser feita com cidadania e respeito aos direitos previstos na constituição

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