segunda-feira, 23 de novembro de 2009

CUIDEMOS DA CRIAÇÃO. ARTIGO DE ENZO BIANCHI

"Prosseguir no caminho do excesso e do desperdício não é só inconsciente ou vergonhoso: é sobretudo suicida, porque coloca em risco a sobrevivência da criação da terra que compartilhamos."

Essa é a opinião do monge e teólogo italiano Enzo Bianchi, em artigo para o jornal La Stampa. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o artigo.
Sim, nós, homens, compartilhamos a responsabilidade, confiada a nós pelo Criador, de cuidar da sua criação. A aliança de Deus é com a humanidade e com todas as outras criaturas vivas, "por todas as gerações futuras" (Gn 9,12)! "Dominar a terra" (cf. Gn 1,28) significa que nós devemos cuidá-la como Deus mesmo faria. "Cultivar e guardar o jardim do Éden" (cf. Gn 2,15) quer dizer, então, servir à terra e protegê-la contra a profanação e a exploração. E isso se torna também a primeira oração: "Por meio do céu, da terra e do mar, por meio do lenho e da pedra, por meio de toda a criação visível e invisível, nós veneramos e honramos o Criador" (Leôncio de Neápolis, "III Discurso sobre os Ícones"), porque "o Criador da matéria tornou-se matéria, na matéria aceitou soprar e, por meio da matéria, realizou a nossa salvação (Giovanni Damasceno, "Defesa das Imagens Sacras" 1, 16)!

Somos-te agradecidos por insistir na gravidade e na urgência da situação atual: prosseguir no caminho do excesso e do desperdício, em dano do próximo e das capacidades vitais do planeta, não é só inconsciente ou vergonhoso: é sobretudo suicida, porque coloca em risco a sobrevivência da criação da terra que compartilhamos. Mas, é verdade, há esperanças.

A Terra Mãe, com modéstia, com generosidade, pode ser uma dessas pequenas luzes, como uma daquelas fagulhas que podem reconduzir às vezes ao esplendor, como nos lembra Ezra Pound no fim dos seus "Cantos". Contanto que nunca perguntemos por quem bate o sino: porque bate para nós. E que compreendamos que não se realizaria aquilo que é possível se não se aspirasse também pelo impossível.

A Terra Mãe pode concorrer a fazer com que não morra a confiança e a esperança, a transmitir ainda o sentido de janelas que se abrem em uma aurora de maio: abrir essas janelas e mostrar a tantos jovens as sombras de uma noite sem estrelas – e nunca mais o sol – não é digno do homem e extingue a vida.

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