terça-feira, 24 de novembro de 2009

CÓDIGO RATZINGER: O SAGRADO E O PROFANO NO VATICANO

Desta vez, não há meninas gritando para os seus ídolos, nem flashes de fotógrafos. E o carpete vermelho não está em Cannes ou em Veneza, menos ainda em Hollywood, mas sim em Roma, na Praça de São Pedro, sob o colunato de Bernini.

Às nove e meia, surgem os primeiros artistas. Nanni Moretti e Paolo Veronesi chegam sozinhos, a pé. Antonello Venditti estaciona o seu Smart na praça. Os Pooh, como se fossem os Beatles, atravessam a Via della Conciliazione entre aplausos. A ocasião é solene. A dez anos da carta que João Paulo II enviou aos artistas, Bento XVI também convocou artistas de todo o mundo e de todas as fés.

A reportagem é de Federico Mello, publicada no jornal Il Fatto Quotidiano, 22-11-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto
Entre eles, 260 no total, os italianos são como os anfitriões: Baglioni, Vecchioni, Venditti, Castellitto e Margaret Mazzantini; Carla Fracci, Raoul Bova, Claudio Amendola e Terence Hill; Franco Nero, Angelo Branduardi, Tornatore, e Nanni Moretti; Carla Fracci, Cocciante, Bocelli, os irmãos Taviani e Morricone.

Entre os internacionais, despontam a superstar Zaha Hadid e Santiago Calatrava e o escritor iraniano Kader Abdolah, que exibe uma vistosa echarpe verde "em solidariedade ao meu povo". Os jornalistas, com um passe de imprensa que tinha um custo de cinco euros, chegam de micro-ônibus aos Museus Vaticanos, a dois passos da incrível volta da Capela Sistina onde os artistas esperam pelo Papa.

Às 11 horas em ponto, o Pontífice entra entre aplausos. Cai o silêncio, e começa o coro da Capela Musical Pontifícia Sistina. Cabe a Sergio Castellitto ler alguns trechos da carta que João Paulo II enviou aos artistas em 1999. Depois, a saudação de Dom Ravasi: "A arte muitas vezes só se dedicou ao efêmero e a exercícios estilísticos sempre mais provocadores e autorreferenciais".

É o momento do Santo Padre. O Papa lembra que foi Paulo VI, no dia 07 de maio de 1964, o primeiro que quis encontrar os artistas para "reafirmar a amizade entre a Igreja e as artes". Mas é à "Beleza" que Bento XVI dedica o seu discurso. Beleza "que remete o homem ao seu destino último", embora "muitas vezes a beleza que é propagandeada é ilusória e mendaz, superficial e deslumbrante até o aturdimento e, em vez de fazer os homens saírem de si e abrir-lhes horizontes de verdadeira liberdade atraindo-os ao alto, torna-os ainda mais escravos, sem esperança e alegria".

Essa beleza "mendaz", continua o Santo Padre, "transforma-se muito rapidamente no seu contrário, assumindo o rosto da obscenidade, da transgressão ou da provocação em si mesma". A sala, absorta, concorda. No fim do discurso, "Até logo" é a saudação. Uma salva de palmas saúda o Pontífice que, anuncia uma voz no microfone, "vai se retirar às suas instâncias".

Dom Ravasi entrega aos presentes uma medalha de recordação. Ele tem uma palavra para todos: "Ciao, Don Matteo", dirigido a Terence Hill, depois abraça Roberto Vecchioni calorosamente .
Nesse ponto, a arte deve descer das alturas do absoluto e se confrontar com a imprensa. Os jornalistas esperam na extraordinária Galeria Lapidária, que liga a Capela Sistina aos Museus Vaticanos. Nas paredes, estão fixadas incisões da época romana: "São os manifestos murários da Antiga Roma – explica-nos uma guia –, anúncios de todo o tipo, começando pelos fúnebres.

Os artistas vão chegando, gentis e disponíveis. Claudio Baglioni está com o filho Giovanni ("Sou um leitor de vocês", nos diz). Andrea Bocelli posa para os fotógrafos com a mulher e os filhos. Susanna Tamaro é perseguida pela correspondente da BBC: "O que você pensa sobre a censura da Igreja, como a da mostra em que estava exposta uma rã crucificada?". "É só não ir ver as coisas que não agradam – responde Tamaro –, e depois, nos países muçulmanos, teriam permitido uma ofensa desse tipo à religião?". Resposta a ser reciclada, no caso, para o programa "Porta a Porta".

Castellitto e Mazzantini atravessam a sala apressadamente, de mãos dadas. Nanni Moretti, o mais esperado – no seu novo filme, ele interpreta o psicólogo de um Papa deprimido – não fala com ninguém. Paolo Sorrentino diz que veio "por curiosidade", enquanto Raoul Bova, evidentemente emocionado, começa a dar entrevistas e não para nem quando os outros já estão no "gnam-gnam", como Dagospia escreveria.

Efetivamente, Umberto Pizzi, o fotógrafo do site de D'Agostino, dispararia obras-primas sob estas curvas sacras. O banquete, reservado só aos artistas, foi oferecido pela Martini, que distribuiu um comunicado: "A presença de Martini como patrocinador único do encontro no Vaticano etc., etc.". E é uma pena que a marca dos aperitivos faça tantos "mercadores do templo" entre os muros vaticanos.

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